Memories Can't Wait
domingo, 29 de março de 2009
segunda-feira, 16 de março de 2009
#38 - Mário Avelar
Herba Santa
Associo melodias às estações,
a instantes mais ou
menos vagos na memória. O
Verão de oitenta e cinco, por exemplo.
Regressara nese tempo da pátria
dos heroís. Os dias fluiam entre
a viagem de um amor vindo
de longe e um almoço fora de horas
num qualquer snack em Lisboa, cracking.
Com liberdade, livros, flores e
a lua, quem não pode ser feliz?
Sim, havia ainda os livros e
a música, o frágil encanto de
Suzanne Vega.
Associo melodias às estações,
a instantes mais ou
menos vagos na memória. O
Verão de oitenta e cinco, por exemplo.
Regressara nese tempo da pátria
dos heroís. Os dias fluiam entre
a viagem de um amor vindo
de longe e um almoço fora de horas
num qualquer snack em Lisboa, cracking.
Com liberdade, livros, flores e
a lua, quem não pode ser feliz?
Sim, havia ainda os livros e
a música, o frágil encanto de
Suzanne Vega.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
#37 - Fernando Cabrita
LADBROKE GROVE
Tinham as húmidas mãos
quando os vi
descansadas sobre os dias
como se a neve que lhes dourasse os ombros
não fosse mais que a morte esperada
e no entanto adiada
a palavra longínqua que os vendavais abafaram
a carta do continente
que não falava de águias ou de tâmaras
nem sugeria as doces primaveras.
Erravam
os braços como galhos caídos na alta invernia
quando os comboios assomavam
o seu líquido assobio
no frio das manhãs
o chá quente com leite fumegando
entre os dedos assombrosos.
Falavam com a voz rouca dos gelos imemoriais
com a angústia dormida na noite dos tempos
junto ao coração sem nexo
sussurando os sonhos infantis
que caminhavam por entre o sono e os farrapos
como as baratas nas garrafas vazias da esperança
e nas pequenas pontas de cigarro
fumadas e cuspidas
um velho cachecol como uma vaga
que assolasse os píncaros do sossego.
Tinham as húmidas mãos
quando os vi
aquecendo uma na outra as veias grossas
a lembrança de coisa nenhuma
doentes de gozo
sidérios
misteriosos
os olhos cravados na negrura da face
a fruta moída pelos sapatos gastos
a conversa sem senso
sem gosto
os gestos fundidos nas paredes sujas
da longa avenida
os escuros portões
os becos transversais.
Tinham
quando os vi
um loiro kebab arrefecendo nas mãos
os doentes cantando a sinfonia gelada das tardes
recebendo ainda as cartas que já nem liam
trauteando Cohen entre a nebilna
como pássaros de medo e escuridão
áugures do silêncio e do segredo
calados como templos antigos demorados nas planícies
mas eternos e puros
como a chama das civilizações
os olhos crispados na velocidade das horas
as húmidas mãos deitadas
quando os vi
na tremenda passagem dos dias em direcção à morte.
Tinham as húmidas mãos
quando os vi
descansadas sobre os dias
como se a neve que lhes dourasse os ombros
não fosse mais que a morte esperada
e no entanto adiada
a palavra longínqua que os vendavais abafaram
a carta do continente
que não falava de águias ou de tâmaras
nem sugeria as doces primaveras.
Erravam
os braços como galhos caídos na alta invernia
quando os comboios assomavam
o seu líquido assobio
no frio das manhãs
o chá quente com leite fumegando
entre os dedos assombrosos.
Falavam com a voz rouca dos gelos imemoriais
com a angústia dormida na noite dos tempos
junto ao coração sem nexo
sussurando os sonhos infantis
que caminhavam por entre o sono e os farrapos
como as baratas nas garrafas vazias da esperança
e nas pequenas pontas de cigarro
fumadas e cuspidas
um velho cachecol como uma vaga
que assolasse os píncaros do sossego.
Tinham as húmidas mãos
quando os vi
aquecendo uma na outra as veias grossas
a lembrança de coisa nenhuma
doentes de gozo
sidérios
misteriosos
os olhos cravados na negrura da face
a fruta moída pelos sapatos gastos
a conversa sem senso
sem gosto
os gestos fundidos nas paredes sujas
da longa avenida
os escuros portões
os becos transversais.
Tinham
quando os vi
um loiro kebab arrefecendo nas mãos
os doentes cantando a sinfonia gelada das tardes
recebendo ainda as cartas que já nem liam
trauteando Cohen entre a nebilna
como pássaros de medo e escuridão
áugures do silêncio e do segredo
calados como templos antigos demorados nas planícies
mas eternos e puros
como a chama das civilizações
os olhos crispados na velocidade das horas
as húmidas mãos deitadas
quando os vi
na tremenda passagem dos dias em direcção à morte.
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sábado, 21 de fevereiro de 2009
#36 Manuel de Freitas
LADY DAY SINGS SOLITUDE
Amanhece, como um parto inútil e reticente.
Suponhamos que estou vivo, na casa
tão branca e vazia, com este corpo em trepasse
-- quase meu. O irritante chilreio dos pássaros
poderia ter um encanto anacrónico se acaso o tivesse.
mas mesmo ele será daqui a pouco sufocado
pelo ruído do primeiro avião
que passará rasante vindo de longes terras
onde se é mais feliz por delegação.
Saúdo a manhã como quem dispensava vê-la,
copo de whisky barato na mão
para tentar tornar menos barata
a literatura vã que daqui possa sair.
A pouco e pouco, o flagelo da luz
conquista a casa e reaparecem
os nomes dos livros, os cinzeiros cheios,
a mágoa insuportavelmente banal
de mais um dia que começa e que não será
talvez o último -- embora estatísticas
várias comprovem que a morte existe
(são poucos é os que se apercebem disso).
A noite passou, sem sono nem alegria.
E eu esqueci-me de lavar a louça
e de encontrar um sentido para a vida
(truque poético bastante conhecido).
O amor não bateu à porta com as suas mãos
frágeis e desonestas, nenhum amigo
-- desses que não tenho -- quis ludibriar
a sua solidão bebendo um copo comigo.
limitei-me a folhear alguns livros,
com o cansaço pévio de saber
que os vou ler. Pus em dia a correspondência
cada vez mais escassa, ofício de afectos
fingidos, calculados silêncios, fórmulas
feitas. E ouvi música desolada, que
é a parte de Deus que melhor conheço.
Fiz não o que pude, mas aquilo
que me permitiu o fluente nada dos gestos.
A claridade é agora fulminante e eu
não tive nenhum êxtase místico,
coisa tão decorativa em esgares, não
deparei com nenhum programa social
que me parecesse exequível, não
aderi a qualquer crença política
para enfim conhecer Bruxelas.
Não me lembrei de nada que valesse a pena.
Fiquei em casa sozinho, no renovado
esforço de não reparar em como
é fétido tudo. E embebedei-me,
como sempre faço quando me sinto
sentir (o que por azar é frequente).
Não fechei as janelas, deixei a luz corromper-me.
Há talvez uma harmonia bizarra
no modo como o pó assenta nos móveis,
uma razão insondável para as nuvens
que conspurcam o vazio do céu,
um motivo confrangedor para eu respirar
ainda, sem jeito nenhum para a morte.
Não sei. Vivi mais um dia, inglório
como os que já foram, fútil como os que virão.
Acariciei o vazio com mãos de seda quebradas
e não me queixei nem sorri
(de resto, porque haveria de o fazer?).
outro avião passou, trazendo ou levando
pessoas que é suposto terem alma,
essa indefinível e funesta coisa
sem a qual este poema desabaria
antes mesmo de se ter começado. Pouco
se perderia, aliás, pois não é nas palavras
que o que se perde regressa alguma vez.
Sucessivos malogros, interstícios vagos
do que nunca poderá ser
ou se dissipou em remorso e ausência.
A vista sobre Monsanto é agora quase bela,
mas não me lembro de ter sido feliz
(há ainda obscenidades que desconheço).
O sol passeia-se sobre todos os telhados
que daqui se lobrigam e eu perscruto atento
a dor que há nisso e em tudo.
Não dormi, estou até demasiado desperto,
a olhar para mim sem me ver. É curioso,
ou chega quase a sê-lo: são precisos
mais de vinte cigarros e uma garrafa inteira
de whisky para escrever um poema
que de sublime terá a intenção -- ou nem isso.
A morte pode esperar,
hei-de estar lá a horas, finalmente anónimo,
capaz de desfrutar a mais ampla morada,
a mais verdadeira e total.
Amanhece, como um parto inútil e reticente.
Suponhamos que estou vivo, na casa
tão branca e vazia, com este corpo em trepasse
-- quase meu. O irritante chilreio dos pássaros
poderia ter um encanto anacrónico se acaso o tivesse.
mas mesmo ele será daqui a pouco sufocado
pelo ruído do primeiro avião
que passará rasante vindo de longes terras
onde se é mais feliz por delegação.
Saúdo a manhã como quem dispensava vê-la,
copo de whisky barato na mão
para tentar tornar menos barata
a literatura vã que daqui possa sair.
A pouco e pouco, o flagelo da luz
conquista a casa e reaparecem
os nomes dos livros, os cinzeiros cheios,
a mágoa insuportavelmente banal
de mais um dia que começa e que não será
talvez o último -- embora estatísticas
várias comprovem que a morte existe
(são poucos é os que se apercebem disso).
A noite passou, sem sono nem alegria.
E eu esqueci-me de lavar a louça
e de encontrar um sentido para a vida
(truque poético bastante conhecido).
O amor não bateu à porta com as suas mãos
frágeis e desonestas, nenhum amigo
-- desses que não tenho -- quis ludibriar
a sua solidão bebendo um copo comigo.
limitei-me a folhear alguns livros,
com o cansaço pévio de saber
que os vou ler. Pus em dia a correspondência
cada vez mais escassa, ofício de afectos
fingidos, calculados silêncios, fórmulas
feitas. E ouvi música desolada, que
é a parte de Deus que melhor conheço.
Fiz não o que pude, mas aquilo
que me permitiu o fluente nada dos gestos.
A claridade é agora fulminante e eu
não tive nenhum êxtase místico,
coisa tão decorativa em esgares, não
deparei com nenhum programa social
que me parecesse exequível, não
aderi a qualquer crença política
para enfim conhecer Bruxelas.
Não me lembrei de nada que valesse a pena.
Fiquei em casa sozinho, no renovado
esforço de não reparar em como
é fétido tudo. E embebedei-me,
como sempre faço quando me sinto
sentir (o que por azar é frequente).
Não fechei as janelas, deixei a luz corromper-me.
Há talvez uma harmonia bizarra
no modo como o pó assenta nos móveis,
uma razão insondável para as nuvens
que conspurcam o vazio do céu,
um motivo confrangedor para eu respirar
ainda, sem jeito nenhum para a morte.
Não sei. Vivi mais um dia, inglório
como os que já foram, fútil como os que virão.
Acariciei o vazio com mãos de seda quebradas
e não me queixei nem sorri
(de resto, porque haveria de o fazer?).
outro avião passou, trazendo ou levando
pessoas que é suposto terem alma,
essa indefinível e funesta coisa
sem a qual este poema desabaria
antes mesmo de se ter começado. Pouco
se perderia, aliás, pois não é nas palavras
que o que se perde regressa alguma vez.
Sucessivos malogros, interstícios vagos
do que nunca poderá ser
ou se dissipou em remorso e ausência.
A vista sobre Monsanto é agora quase bela,
mas não me lembro de ter sido feliz
(há ainda obscenidades que desconheço).
O sol passeia-se sobre todos os telhados
que daqui se lobrigam e eu perscruto atento
a dor que há nisso e em tudo.
Não dormi, estou até demasiado desperto,
a olhar para mim sem me ver. É curioso,
ou chega quase a sê-lo: são precisos
mais de vinte cigarros e uma garrafa inteira
de whisky para escrever um poema
que de sublime terá a intenção -- ou nem isso.
A morte pode esperar,
hei-de estar lá a horas, finalmente anónimo,
capaz de desfrutar a mais ampla morada,
a mais verdadeira e total.
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domingo, 1 de fevereiro de 2009
#35 - Levi Condinho
RANHURAS
Ranhuras no sótão
rascunhos na gaveta tarde na noite só
dormem todos e estão bem enquanto dormem
há uma nódoa negra no Alentejo
como podia ser a minha camisa inocente
um voo planante e redondo de andorinha
uma pobre coruja nunca socializada
na pérfida mente da Humanidade
ranhuras na alma silvo de comboio de ferro
rasgar do vinho nas tripas iradas
o fato branco do objector de consciência na arca
e a tristeza da boina vermelha
de um enorme campónio feito comando dos infernos
um jovem saturado de heroína
à espera do Lou Reed que o não salvará
porque "só há saída pelo fundo" (Cristovam Pavia)
Bach regressa sempre como se fora Deus
Ranhuras no sótão
rascunhos na gaveta tarde na noite só
dormem todos e estão bem enquanto dormem
há uma nódoa negra no Alentejo
como podia ser a minha camisa inocente
um voo planante e redondo de andorinha
uma pobre coruja nunca socializada
na pérfida mente da Humanidade
ranhuras na alma silvo de comboio de ferro
rasgar do vinho nas tripas iradas
o fato branco do objector de consciência na arca
e a tristeza da boina vermelha
de um enorme campónio feito comando dos infernos
um jovem saturado de heroína
à espera do Lou Reed que o não salvará
porque "só há saída pelo fundo" (Cristovam Pavia)
Bach regressa sempre como se fora Deus
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domingo, 25 de janeiro de 2009
#34 - Fernando Pinto do Amaral
STRANGERS IN THE NIGHT
Entrava pelas janelas uma nuvem
de incandescente néon -- no jardim
uma brisa do sul ia agitando
palmeiras e pessoas a caminho
do casino. Tão longe, a minha alma
arrastava-me os dedos na memória
das teclas que sabia já de cor,
na espuma fria do piano. Ali
estava eu a tocar enquanto alguém
mastigava entre os lábios feitos lama
palavras inglesas, irreais
canções que toda a gente conhecia
talvez desde o Sinatra ou mesmo antes,
num labirinto de reminiscências
agora tão confusas, de ouvido em ouvido,
cem mil vezes cantadas na penumbra
de restaurantes como aquele, no fumo
de acidentais conversas entre mesas
onde ardiam as velas e os sorrisos
por vezes desabados em cascatas
de gargalhadas que eu já nem ouvia.
A minha solidão todas as noites
iluminava a dor das melodias
que falavam de amores desencontrados
e outras pequenas mágoas sem regresso,
civilizadas e cosmopolitas
como os casais vestidos a rigor:
velhos súbditos de Sua Majestade
em smokings muito brancos, ressurgindo
de algum conto do Somerset Maugham
e só de vez em quando uns três ou quatro
portugueses perdidos na ilusão
de fantasias prontas a servir
num cenário dourado, entre a patine
de espelhos e de sonhos. Era assim
aquele hotel de luxo à sexta-feira:
jantar dançante à luz de cinco estrelas
que cintilavam sempre até à última
gotícula de som, até ao último
parzinho que deixasse aquela pista
finalmente vazia, à mercê do meu medo.
Entraria mais tarde pla janela
um farrapo de cinza, o meu destino
esquecido e friorento, simulando,
entre o silêncio cavo do piano
e o sopro do mar enrouquecido,
o luar sempre falso de outro céu
onde apenas brilhassem cinco estrelas
cadentes -- essas cinco últimas lágrimas
que um pianista obscuro como eu
nunca teve coragem de chorar.
Entrava pelas janelas uma nuvem
de incandescente néon -- no jardim
uma brisa do sul ia agitando
palmeiras e pessoas a caminho
do casino. Tão longe, a minha alma
arrastava-me os dedos na memória
das teclas que sabia já de cor,
na espuma fria do piano. Ali
estava eu a tocar enquanto alguém
mastigava entre os lábios feitos lama
palavras inglesas, irreais
canções que toda a gente conhecia
talvez desde o Sinatra ou mesmo antes,
num labirinto de reminiscências
agora tão confusas, de ouvido em ouvido,
cem mil vezes cantadas na penumbra
de restaurantes como aquele, no fumo
de acidentais conversas entre mesas
onde ardiam as velas e os sorrisos
por vezes desabados em cascatas
de gargalhadas que eu já nem ouvia.
A minha solidão todas as noites
iluminava a dor das melodias
que falavam de amores desencontrados
e outras pequenas mágoas sem regresso,
civilizadas e cosmopolitas
como os casais vestidos a rigor:
velhos súbditos de Sua Majestade
em smokings muito brancos, ressurgindo
de algum conto do Somerset Maugham
e só de vez em quando uns três ou quatro
portugueses perdidos na ilusão
de fantasias prontas a servir
num cenário dourado, entre a patine
de espelhos e de sonhos. Era assim
aquele hotel de luxo à sexta-feira:
jantar dançante à luz de cinco estrelas
que cintilavam sempre até à última
gotícula de som, até ao último
parzinho que deixasse aquela pista
finalmente vazia, à mercê do meu medo.
Entraria mais tarde pla janela
um farrapo de cinza, o meu destino
esquecido e friorento, simulando,
entre o silêncio cavo do piano
e o sopro do mar enrouquecido,
o luar sempre falso de outro céu
onde apenas brilhassem cinco estrelas
cadentes -- essas cinco últimas lágrimas
que um pianista obscuro como eu
nunca teve coragem de chorar.
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domingo, 11 de janeiro de 2009
#33 João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)
Introdução à teoria das catástrofes
o quark provavelmente é cindível
e nunca haveremos de perceber grande coisa
da economia da matéria informação entropia calor
não procures a beleza resiste
a vozes que não te chamam nem escutam
cresce e organiza-te.
em verdade vivo numa era de trevas --
dizia o b. b. (1898-1956) --
uma palavra que não seja dúplice é um absurdo
as ciências propõem jogos de azar
os políticos sorriem
e uma nuvem pousou no coração da europa
carregada de pensamentos secretos que
se partilham já sem horror.
springsteen em minneapolis e a juventus
no communale há uma vibração eléctrica no ar
sinto-a passar ela
sacode o coração das multidões
e este bate em uníssono brutalmente
sen sentido.
o quark provavelmente é cindível
e nunca haveremos de perceber grande coisa
da economia da matéria informação entropia calor
não procures a beleza resiste
a vozes que não te chamam nem escutam
cresce e organiza-te.
em verdade vivo numa era de trevas --
dizia o b. b. (1898-1956) --
uma palavra que não seja dúplice é um absurdo
as ciências propõem jogos de azar
os políticos sorriem
e uma nuvem pousou no coração da europa
carregada de pensamentos secretos que
se partilham já sem horror.
springsteen em minneapolis e a juventus
no communale há uma vibração eléctrica no ar
sinto-a passar ela
sacode o coração das multidões
e este bate em uníssono brutalmente
sen sentido.
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
#32 Frederico Barbosa
Lascaux
no cinema de Lascaux
(imagem sobre imagem)
cortes:
séculos de Klee
recortes de cores
nos desenhos do Kane
na voz bellae
(Billie & Ella)
nas suas pernas cruzadas
em frente à tv
mágico quase acaso
colorindo
(como que sem querer)
a caverna escura
em que a gente se vê
no cinema de Lascaux
(imagem sobre imagem)
cortes:
séculos de Klee
recortes de cores
nos desenhos do Kane
na voz bellae
(Billie & Ella)
nas suas pernas cruzadas
em frente à tv
mágico quase acaso
colorindo
(como que sem querer)
a caverna escura
em que a gente se vê
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Frederico Barbosa
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
#31 Al Berto
Noite de Lisboa com Auto-retrato e Sombra de Ian Curtis
filamentos de gelatinoso néon invadem a catedral
em celulóide do filme nocturno: a arquitectura de asas
abóbadas de vento pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem que rasteja
de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco duma geração de subúrbio
presentes aqui os jovens, com a canga nos ombros
e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o corpo estilhaça
os vidros esfregados nos ombros no peito
onde uma veia rebenta para mostrar o radioso canto
depois dança contorce-se embriagado
cobre o rosto suado com aponta dos dedos espalha
sangue e cuspo construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno
domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre
a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura
só é perceptível na súbita erecção do enforcado
filamentos de gelatinoso néon invadem a catedral
em celulóide do filme nocturno: a arquitectura de asas
abóbadas de vento pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem que rasteja
de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco duma geração de subúrbio
presentes aqui os jovens, com a canga nos ombros
e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o corpo estilhaça
os vidros esfregados nos ombros no peito
onde uma veia rebenta para mostrar o radioso canto
depois dança contorce-se embriagado
cobre o rosto suado com aponta dos dedos espalha
sangue e cuspo construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno
domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre
a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura
só é perceptível na súbita erecção do enforcado
domingo, 23 de novembro de 2008
#30 - Martins Fontes
JAZZ-BAND
As raparigas americanas,
Cada qual delas mais primorosa,
Parecem feitas de porcelanas,
De opala e ouro, de neve e rosa!
Carnes de pêssego e de açucenas,
De tanta seiva, tanto viçor,
Que, sendo frutos, essas pequenas
Têm, na verdade, gosto de flor!
Sabor de folha de árvore nova,
Rica de um sumo que retempera,
Fazem a boca de quem as prova
Cheirar a essências da primavera!
São deliciosas essas meninas,
Como os morangos ao paladar!
Ai, Doroteias, ai, Catarinas,
Com que doçura sabeis amar!
Que alacridade, que juventude,
Têm Lady Ruby, Miss Adelaide!
Como deslumbra ver a saúde
Dessas papoulas do Riverside!
E todas elas, moças e frescas,
Sem um vestígio de creme ou khol,
Enamoradas e romanescas,
Semelham cravos, sorrindo ao sol!
Independentes, com ousadia,
Sem preconceitos, nem leis mundanas,
Bendita seja vossa alegria,
Lindas mulheres americanas!
A vós, queridas dos meus desejos,
A todas, todas, louco e febril,
Envio beijos, mas tantos beijos
Quantas estrelas há no Brasil!
As raparigas americanas,
Cada qual delas mais primorosa,
Parecem feitas de porcelanas,
De opala e ouro, de neve e rosa!
Carnes de pêssego e de açucenas,
De tanta seiva, tanto viçor,
Que, sendo frutos, essas pequenas
Têm, na verdade, gosto de flor!
Sabor de folha de árvore nova,
Rica de um sumo que retempera,
Fazem a boca de quem as prova
Cheirar a essências da primavera!
São deliciosas essas meninas,
Como os morangos ao paladar!
Ai, Doroteias, ai, Catarinas,
Com que doçura sabeis amar!
Que alacridade, que juventude,
Têm Lady Ruby, Miss Adelaide!
Como deslumbra ver a saúde
Dessas papoulas do Riverside!
E todas elas, moças e frescas,
Sem um vestígio de creme ou khol,
Enamoradas e romanescas,
Semelham cravos, sorrindo ao sol!
Independentes, com ousadia,
Sem preconceitos, nem leis mundanas,
Bendita seja vossa alegria,
Lindas mulheres americanas!
A vós, queridas dos meus desejos,
A todas, todas, louco e febril,
Envio beijos, mas tantos beijos
Quantas estrelas há no Brasil!
terça-feira, 4 de novembro de 2008
# 29 - João Miguel Fernandes Jorge
THE BEACH BOYS
Aqueles cinco não eram os melhores na escola.
Todo o verão seguiam no Chrysler verde e branco
as ruas.
O aspecto do corpo tão nitidamente
contornado, a cor da pele, os cerrados olhos
cheios de anjos e demónios, de sombras de mortos,
de mulheres brancas.
Erguiam as noites pelos corredores dos bares
tão pouco espaço na esfera das visões
corpo masculino onde a poeira do verão conduz
a ideias brutas e primitivas, a extremos surpre-
endentes.
Aqueles cinco iam amarrotados no pequeno Morris.
Acompanhavam a moda no verão
cabelos, unhas, os próprios mamilos cortavam
num piedoso apego às coisas materiais.
Húmido, fantasiosos, ao seu lado o verão era mais
verão
entre as divididas esplanadas do mar.
Corriam como se fossem o aviso de uma calamidade.
A uns causavam terror
a outros davam alegria e consolação.
Aqueles cinco não eram os melhores na escola.
Todo o verão seguiam no Chrysler verde e branco
as ruas.
O aspecto do corpo tão nitidamente
contornado, a cor da pele, os cerrados olhos
cheios de anjos e demónios, de sombras de mortos,
de mulheres brancas.
Erguiam as noites pelos corredores dos bares
tão pouco espaço na esfera das visões
corpo masculino onde a poeira do verão conduz
a ideias brutas e primitivas, a extremos surpre-
endentes.
Aqueles cinco iam amarrotados no pequeno Morris.
Acompanhavam a moda no verão
cabelos, unhas, os próprios mamilos cortavam
num piedoso apego às coisas materiais.
Húmido, fantasiosos, ao seu lado o verão era mais
verão
entre as divididas esplanadas do mar.
Corriam como se fossem o aviso de uma calamidade.
A uns causavam terror
a outros davam alegria e consolação.
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João Miguel Fernandes Jorge,
The Beach Boys
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
#28 - Fernando Pinto do Amaral
RIBAS
Não era bem a minha vida. Um gesto
afasta de repente o que sentimos, vai
por uma rua estreita como um gato
cinzento. O nevoeiro
descia sobre a praia, aproximava
o mar do céu. A minha mãe
passara ali os verões da sua longa
infância.
Sem dó nem piedade -- e todavia,
às vezes não sabia resistir:
zero um sete cinco nove,
mas faltava a coragem. Mais cruel
só o gume da espada, o silêncio que brilha
em olhos muito belos, quase iguais
aos teus. Adolescentes
surgiam pouco a pouco 'round midnight,
enrolando mortalhas -- tão fácil
respirar esse cheiro inocente, esquecer
o corpo, a alma e outras sempre inúteis,
insensatas razões.
Usavam roupas leves, confrontavam
teorias de engate. Voltei-me:
intermitentes luzes davam espaço
a uma sombra que eras tu -- devias
conhecer bem aquela casa,
as paredes caiadas, a porta pintada
de verde.
«Solitude stands in the doorway.» A voz
ignorava a passagem das horas,
todo o o bem, todo o mal, as promessas
que há num copo de gin quando ficamos
sozinhos, face a face
com o tempo que nos resta: «eu também sou
um sonho fugitivo.»
Não era bem a minha vida, apenas
um obscuro entusiasmo,
as lágrimas correndo sobre o rosto.
Não era bem a minha vida. Um gesto
afasta de repente o que sentimos, vai
por uma rua estreita como um gato
cinzento. O nevoeiro
descia sobre a praia, aproximava
o mar do céu. A minha mãe
passara ali os verões da sua longa
infância.
Sem dó nem piedade -- e todavia,
às vezes não sabia resistir:
zero um sete cinco nove,
mas faltava a coragem. Mais cruel
só o gume da espada, o silêncio que brilha
em olhos muito belos, quase iguais
aos teus. Adolescentes
surgiam pouco a pouco 'round midnight,
enrolando mortalhas -- tão fácil
respirar esse cheiro inocente, esquecer
o corpo, a alma e outras sempre inúteis,
insensatas razões.
Usavam roupas leves, confrontavam
teorias de engate. Voltei-me:
intermitentes luzes davam espaço
a uma sombra que eras tu -- devias
conhecer bem aquela casa,
as paredes caiadas, a porta pintada
de verde.
«Solitude stands in the doorway.» A voz
ignorava a passagem das horas,
todo o o bem, todo o mal, as promessas
que há num copo de gin quando ficamos
sozinhos, face a face
com o tempo que nos resta: «eu também sou
um sonho fugitivo.»
Não era bem a minha vida, apenas
um obscuro entusiasmo,
as lágrimas correndo sobre o rosto.
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Fernando Pinto do Amaral
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
#27 - Fernando Grade
A MÚSICA DAS TREVAS
Através dos vidros quebrados passou o anjo
e era apenas um nome em pânico, um brusco fender
sangrento de flores.
Anjo serve somente para pensar
que o fogo na floresta esta vez não foi muito cruel:
é uma palavra que esconde as calemas
e traz um cheiro de fruto à pele das raparigas
mas por muito bonito que o som seja
e viva carinhoso, íntimo entre as outras palavras
o mar ruge sempre e rasga as rochas
engole casas de pedra ou palha
O MAR NÃO NADA COM ANJOS.
Trazias (é verdade) o nome de anjo
para a minha vida. Era um bicho apaixonante com barbatanas e
guelras e tem passado o tempo a retalhar rosas.
Esse bicho poderás ser tu, leitora do caos
que te masturbavas há 20 anos ao som
dos meus versos lusos, à viola. Sei que vais envelhecendo
ao ritmo com que o Bob Dylan envelhece,
nos cabelos pretos que perco
em países de cidra e mel.
Através do medo em cobra passou o anjo
entre prédios novos e tristes que cheiram a taberna
mas a música das trevas zela por nós.
Através dos vidros quebrados passou o anjo
e era apenas um nome em pânico, um brusco fender
sangrento de flores.
Anjo serve somente para pensar
que o fogo na floresta esta vez não foi muito cruel:
é uma palavra que esconde as calemas
e traz um cheiro de fruto à pele das raparigas
mas por muito bonito que o som seja
e viva carinhoso, íntimo entre as outras palavras
o mar ruge sempre e rasga as rochas
engole casas de pedra ou palha
O MAR NÃO NADA COM ANJOS.
Trazias (é verdade) o nome de anjo
para a minha vida. Era um bicho apaixonante com barbatanas e
guelras e tem passado o tempo a retalhar rosas.
Esse bicho poderás ser tu, leitora do caos
que te masturbavas há 20 anos ao som
dos meus versos lusos, à viola. Sei que vais envelhecendo
ao ritmo com que o Bob Dylan envelhece,
nos cabelos pretos que perco
em países de cidra e mel.
Através do medo em cobra passou o anjo
entre prédios novos e tristes que cheiram a taberna
mas a música das trevas zela por nós.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
#26 - Levi Condinho
PENTECOSTES
O rosto oval de um negro
sósia de um mais escuro Milt Jackson -- o do vibrafone / carroussel
e o dela «pálida e loira muito loira e viva»
amorosa círculo aura sem contornos -- Grunewald --¨
entre faces e lábios e mãos trocando-se
axilas venusianas em curvatura flutuante
místicos sonâmbulos
corpo a corpo em sentada reclinação
sobre os degraus do altar lateral
cópula do incenso com a evolução do caril
o órgão e a flauta no alto coro
Telemann(eando) aos quatro ventos do templo
derramando sobre o amor dos amantes
pétalas fulvas de gladíolo
como outrora eu vi
-- eu vi -- nessas claras manhãs de Pentecostes
O rosto oval de um negro
sósia de um mais escuro Milt Jackson -- o do vibrafone / carroussel
e o dela «pálida e loira muito loira e viva»
amorosa círculo aura sem contornos -- Grunewald --¨
entre faces e lábios e mãos trocando-se
axilas venusianas em curvatura flutuante
místicos sonâmbulos
corpo a corpo em sentada reclinação
sobre os degraus do altar lateral
cópula do incenso com a evolução do caril
o órgão e a flauta no alto coro
Telemann(eando) aos quatro ventos do templo
derramando sobre o amor dos amantes
pétalas fulvas de gladíolo
como outrora eu vi
-- eu vi -- nessas claras manhãs de Pentecostes
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quarta-feira, 1 de outubro de 2008
#25 - Alberto de Lacerda
OUVINDO RAVI SHANKAR EM LONDRES
No tumulto ardente do teu canto
Existe a calma que eu necessito
É de dentro que eu preciso de sentir
As montanhas os planaltos e o fogo
As espadas circulares do fogo
No tumulto ardente do teu canto
Existe a calma que eu necessito
É de dentro que eu preciso de sentir
As montanhas os planaltos e o fogo
As espadas circulares do fogo
Junho de 1966
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
#24 - Manuel de Freitas
Gloomy Sunday
Já em 1957 não eras tu que cantavas,
mas antes a morte por ti
-- e ninguém canta melhor. De permeio,
gestos simples de álcool somente
e a heroína gasta nas veias necessariamente
cansadas de um destino de aluguer
-- mais barato destino a esboroar-se na noite.
Ficaram imunes as trevas desse céu
onde só a dor é desmesura bastante
-- e delas renasce um timbre inconsolável
a lembrar-nos a morte cantante,
o mais que humano sentido de deslumbrante
fracasso. Essa mesma seringa já pronta
com que roubavas aos dias o seu azul forte,
uma cor demolida, um tão triste azul.
Como disse Lowry. A verdade encontrá-la-íamos
talvez na sombra perdida de todas as garrafas
com que um dia renunciámos ao mundo: Johnnie
Walker, Four Roses, Jameson, Jack Daniels,
Moskovskaya, Captain Morgan, José Cuervo, etc.
Um infindável folclore da agonia, desta
suave agonia que só repousaria na mais perversa
das luzes, mas também ela parecida com a morte.
Com a morte que permanece já nem palavra
sequer, mas baba imensamente repetida,
recalcada ou vomitada. Tanto faz,
único assunto em que as mãos depõem
a sua desesperante ferrugem
-- a que não pôde deter um saxofone
presidente demitindo-se pouco antes de ti.
Quando uma canção bastava afinal.
A própria morte cantando nos arredores
inúteis de uma lágrima furtiva,
sem rosto capaz. Essa tão longe canção azul
ainda, da cor dizimada que o pânico tem.
Da cor de um beijo dado mais tarde.
Já em 1957 não eras tu que cantavas,
mas antes a morte por ti
-- e ninguém canta melhor. De permeio,
gestos simples de álcool somente
e a heroína gasta nas veias necessariamente
cansadas de um destino de aluguer
-- mais barato destino a esboroar-se na noite.
Ficaram imunes as trevas desse céu
onde só a dor é desmesura bastante
-- e delas renasce um timbre inconsolável
a lembrar-nos a morte cantante,
o mais que humano sentido de deslumbrante
fracasso. Essa mesma seringa já pronta
com que roubavas aos dias o seu azul forte,
uma cor demolida, um tão triste azul.
Como disse Lowry. A verdade encontrá-la-íamos
talvez na sombra perdida de todas as garrafas
com que um dia renunciámos ao mundo: Johnnie
Walker, Four Roses, Jameson, Jack Daniels,
Moskovskaya, Captain Morgan, José Cuervo, etc.
Um infindável folclore da agonia, desta
suave agonia que só repousaria na mais perversa
das luzes, mas também ela parecida com a morte.
Com a morte que permanece já nem palavra
sequer, mas baba imensamente repetida,
recalcada ou vomitada. Tanto faz,
único assunto em que as mãos depõem
a sua desesperante ferrugem
-- a que não pôde deter um saxofone
presidente demitindo-se pouco antes de ti.
Quando uma canção bastava afinal.
A própria morte cantando nos arredores
inúteis de uma lágrima furtiva,
sem rosto capaz. Essa tão longe canção azul
ainda, da cor dizimada que o pânico tem.
Da cor de um beijo dado mais tarde.
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008
#23 Manuel de Freitas
ALL YOU NEED IS LOVE 1
E no entanto regressamos
-- aos becos onde o sangue
insiste em não ser tocado e visto.
À espera de novos punhais. Quem sabe?
Talvez a vontade -- desejo de anulação
nos braços tranquilos de ninguém.
Ou simples obstinação da carne, a levar-nos
por onde jurámos não ir, lembrados
das vísceras e das intempéries
a que emprestámos poemas mais
ou menos maus e uma urgência igual
à que julgamos sentir agora.
O amor? Não me fodam.
Apenas um filme sem enredo
que já vimos demasiadas vezes
e que vai continuar a acabar mal
-- como a puta da vida, aliás.
E no entanto regressamos
-- aos becos onde o sangue
insiste em não ser tocado e visto.
À espera de novos punhais. Quem sabe?
Talvez a vontade -- desejo de anulação
nos braços tranquilos de ninguém.
Ou simples obstinação da carne, a levar-nos
por onde jurámos não ir, lembrados
das vísceras e das intempéries
a que emprestámos poemas mais
ou menos maus e uma urgência igual
à que julgamos sentir agora.
O amor? Não me fodam.
Apenas um filme sem enredo
que já vimos demasiadas vezes
e que vai continuar a acabar mal
-- como a puta da vida, aliás.
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#22 Manuel de Freitas
ALL YOU NEED IS LOVE 2
Mas não é bem assim, dir-se-á.
Vinte e seis séculos de lírica
deviam, pelo menos, provar o contrário
-- na hipótese argilosa de esses
cadáveres afamados terem alguma coisa
a dizer-nos quanto ao melhor método
de atravessar ruas superpovoadas.
Onde eu te vi passar, meu amor,
com o lenço vermelho, os cabelos
mais curtos e as pernas que embora
tenazes herméticas te davam -- por
assim dizer -- um ar sofrível de corpo.
Não sei porque é que reparei nisso,
logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte
-- a reivindicar uma anatomia, e paz.
Mas não é bem assim, dir-se-á.
Vinte e seis séculos de lírica
deviam, pelo menos, provar o contrário
-- na hipótese argilosa de esses
cadáveres afamados terem alguma coisa
a dizer-nos quanto ao melhor método
de atravessar ruas superpovoadas.
Onde eu te vi passar, meu amor,
com o lenço vermelho, os cabelos
mais curtos e as pernas que embora
tenazes herméticas te davam -- por
assim dizer -- um ar sofrível de corpo.
Não sei porque é que reparei nisso,
logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte
-- a reivindicar uma anatomia, e paz.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008
#21 Fernando Pinto do Amaral
«AS TIME GOES BY»
Fizera uma promessa: ir ao encontro
de uma estranha miragem, mal sabia
porquê -- pedia apenas
«qualcosa da bere». Seria ridículo
ensinar truques ao destino, ouvir
a fala de um só deus. Ficava ali
sob o antigo temor
da beleza,
sob o poder da noite. Ousadias, receios,
tudo parecia igual.
Luminosos golfinhos sorriam,
enfeitavam o cais, esse caos
reflectido nos seus olhos. Sim,
talvez fosse esse rosto a construir
o decorrer do tempo, um sentimento
em música de fundo -- esplanadas
ao longo de palmeiras, a caminho
da maior solidão. Em San Remo
há mais de «cinco esquinas» e o Frágil
desaparecera noutro mar, submerso
em «prazer e glória» -- «a fight for love
and glory». A Agustina
tem deveras razão, é necessário
o sofrimento. Ainda bem
que as promessas não são para cumprir
e há uma porta aberta sobre a água.
Fizera uma promessa: ir ao encontro
de uma estranha miragem, mal sabia
porquê -- pedia apenas
«qualcosa da bere». Seria ridículo
ensinar truques ao destino, ouvir
a fala de um só deus. Ficava ali
sob o antigo temor
da beleza,
sob o poder da noite. Ousadias, receios,
tudo parecia igual.
Luminosos golfinhos sorriam,
enfeitavam o cais, esse caos
reflectido nos seus olhos. Sim,
talvez fosse esse rosto a construir
o decorrer do tempo, um sentimento
em música de fundo -- esplanadas
ao longo de palmeiras, a caminho
da maior solidão. Em San Remo
há mais de «cinco esquinas» e o Frágil
desaparecera noutro mar, submerso
em «prazer e glória» -- «a fight for love
and glory». A Agustina
tem deveras razão, é necessário
o sofrimento. Ainda bem
que as promessas não são para cumprir
e há uma porta aberta sobre a água.
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008
#20 Frederico Barbosa
Star Dust
(Lester Young
lendo Star Dust)
toda pele
quando ele toca
troca
arde
vira verde
trans-
parece
(Lester Young
lendo Star Dust)
nada nunca ninguém
quando ele toca ou fala
toca tão completamente
quando completa foi tocada
(Lester Young
lendo Star Dust)
(Lester Young
lendo Star Dust)
toda pele
quando ele toca
troca
arde
vira verde
trans-
parece
(Lester Young
lendo Star Dust)
nada nunca ninguém
quando ele toca ou fala
toca tão completamente
quando completa foi tocada
(Lester Young
lendo Star Dust)
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008
#19 - Eduardo Guerra Carneiro
RUY BELO
É no Café Nacional, em Vila do Conde,
e eu converso com Ruy Belo, nos anos
sessenta. Não é tempo dele avançar
em longas bebidas e os próprios Beatles
não gravaram ainda o álbum do Sargento Pimenta.
O Poeta bebe apenas da chícara o quente
cimbalino, enquanto espera a Teresa,
em casa dos pais, na doçaria ao lado.
É no Café Nacional, em Vila do Conde,
em domingo de bola na telefonia
do balcão. Ele fala-me das palavras
sábias do poema mas eu não sintonizo
e, ouvidos moucos, desligo, desconfiado
que são apenas palavras de beato.
É no Café Nacional, em Vila do Conde,
e eu converso com Ruy Belo, nos anos
sessenta. Não é tempo dele avançar
em longas bebidas e os próprios Beatles
não gravaram ainda o álbum do Sargento Pimenta.
O Poeta bebe apenas da chícara o quente
cimbalino, enquanto espera a Teresa,
em casa dos pais, na doçaria ao lado.
É no Café Nacional, em Vila do Conde,
em domingo de bola na telefonia
do balcão. Ele fala-me das palavras
sábias do poema mas eu não sintonizo
e, ouvidos moucos, desligo, desconfiado
que são apenas palavras de beato.
domingo, 7 de setembro de 2008
#18 - Fernando Pinto do Amaral
AURAS
Ainda quase a medo, ias pedir-me
o primeiro cigarro dessa noite.
Passaram alguns dias e recordo
a lua sobre o pátio, entre o fumo
e o princípio de um sonho a proteger
o sorriso de dois corações.
Era quase absurdo -- quem vivia
por nós aquele idílio? Quem guiava
os passos clandestinos entre as alas
da casa adormecida? Outubro amou
aquela intimidade cada vez mais nossa
e o desejo de nos abraçarmos
como duas crianças, para lá
de toda a nostalgia deste mundo.
Falávamos de bruxas e duendes
que entravam pla janela. Como tu
conseguiste ser mais do que uma sombra
ao longo desse tempo! A lareira fundia
as nossas solidões uma na outra
ali, na sala, ao som da Sarah Vaughan.
Canções abertas rumo a cada espírito
durante esse momento em que as palavras
nada querem dizer, mas é possível
vislumbrar de repente
as coloridas auras que nos cercam,
divinas e terrenas, como o anjo
em que me transformei -- agora condenado
a milhares de perguntas que se perdem
na tua ausência ainda a cintilar
aqui
nas desesperadas luzes da cidade,
no último cigarro da noite.
Ainda quase a medo, ias pedir-me
o primeiro cigarro dessa noite.
Passaram alguns dias e recordo
a lua sobre o pátio, entre o fumo
e o princípio de um sonho a proteger
o sorriso de dois corações.
Era quase absurdo -- quem vivia
por nós aquele idílio? Quem guiava
os passos clandestinos entre as alas
da casa adormecida? Outubro amou
aquela intimidade cada vez mais nossa
e o desejo de nos abraçarmos
como duas crianças, para lá
de toda a nostalgia deste mundo.
Falávamos de bruxas e duendes
que entravam pla janela. Como tu
conseguiste ser mais do que uma sombra
ao longo desse tempo! A lareira fundia
as nossas solidões uma na outra
ali, na sala, ao som da Sarah Vaughan.
Canções abertas rumo a cada espírito
durante esse momento em que as palavras
nada querem dizer, mas é possível
vislumbrar de repente
as coloridas auras que nos cercam,
divinas e terrenas, como o anjo
em que me transformei -- agora condenado
a milhares de perguntas que se perdem
na tua ausência ainda a cintilar
aqui
nas desesperadas luzes da cidade,
no último cigarro da noite.
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Sarah Vaughan
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
#17 - Mário Avelar
Num canal menor
The gift of life is a shot in the dark,
Laurie Anderson
Uma gelosia
entreaberta, um
fulgor na manhã.
Apenas um breve
rumor sob o branco:
no lugar da fonte
nova, senti o
olhar do poeta,
gato, príncipe, em
seu trono. Não são
esses os caminhos
de Sião.
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Mário Avelar
sábado, 30 de agosto de 2008
#16 - Levi Condinho
O VELHO AMOR
Nem sempre um saxofone anuncia a Páscoa
mas por aqui se sobem descendo
as curvas e contracurvas da senda
que a um calvário conduz serpenteando
contra o martírio a cruz os cravos os espinhos
a senda da radiosa e branca alegria
da alegria de anunciações matinais
-- nocturna seja a música --
pois também naqueles lábios Deus habitou
os de Julian Adderley -- recuso dizer Cannonball
-- alegria é paz
-- alegria é luz
e mais recuso a calúnia de blasfemo
nem sempre um saxofone foi obra do diabo
também o diabo celebrará a Páscoa
daquele que tentou sem vencer
desistindo -- vade retro -- pela fuga
ou por um excesso de amor magoado incompreendido
(oh vilipendiado Lúcifer)
jazz não é chaga sulfúrea de vício lúgubre
senão vede o coração pulsando
copulando no contrabaixo
grande esquife mugidor generoso corpo/caixa
vede pés e mão do baterista como esfregam
a matéria levitante
entre o éter e o sangue
buscando conciliação por dentro do tempo cerrado
(matemática linear paramentada em artifícios)
que mais poderia Deus querer
na grande falta da sua completa solidão
senão esta invenção pascal do jazz
para o fim do seu imenso tédio
Nem sempre um saxofone anuncia a Páscoa
mas por aqui se sobem descendo
as curvas e contracurvas da senda
que a um calvário conduz serpenteando
contra o martírio a cruz os cravos os espinhos
a senda da radiosa e branca alegria
da alegria de anunciações matinais
-- nocturna seja a música --
pois também naqueles lábios Deus habitou
os de Julian Adderley -- recuso dizer Cannonball
-- alegria é paz
-- alegria é luz
e mais recuso a calúnia de blasfemo
nem sempre um saxofone foi obra do diabo
também o diabo celebrará a Páscoa
daquele que tentou sem vencer
desistindo -- vade retro -- pela fuga
ou por um excesso de amor magoado incompreendido
(oh vilipendiado Lúcifer)
jazz não é chaga sulfúrea de vício lúgubre
senão vede o coração pulsando
copulando no contrabaixo
grande esquife mugidor generoso corpo/caixa
vede pés e mão do baterista como esfregam
a matéria levitante
entre o éter e o sangue
buscando conciliação por dentro do tempo cerrado
(matemática linear paramentada em artifícios)
que mais poderia Deus querer
na grande falta da sua completa solidão
senão esta invenção pascal do jazz
para o fim do seu imenso tédio
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Levi Condinho
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
#15 - Ricardo António Alves
Humanidade
A doçura daquela
voz a tristeza daqueles
olhos o calor da
trompete de
Armstrong o segregado
desmentindo o ódio
A doçura daquela
voz a tristeza daqueles
olhos o calor da
trompete de
Armstrong o segregado
desmentindo o ódio
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Ricardo António Alves
sábado, 23 de agosto de 2008
#14 - João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)
O ídolo da juventude
estou morto sobre um piano abandonado
agoniado de jazz
descrente de sonhos que não me sonhei sonhar
reincidente nesta lucidez de estar farto de moscas
vou entrando nas répteis represas do presente
rasgando anjos de papel com as botas e os punhos
(o sangue cai sempre sem remorso
num silêncio incorruptível)
estou vivo num mar de plástico e excedentes
e o refrão soa distante como não haver mais distância
expande-se e reflui e explode nas minhas têmporas
no future no future no future
ergo a face o sorriso acoplado
leviathan cuspindo no chão
então digo
é meu o século do terror sem limites.
estou morto sobre um piano abandonado
agoniado de jazz
descrente de sonhos que não me sonhei sonhar
reincidente nesta lucidez de estar farto de moscas
vou entrando nas répteis represas do presente
rasgando anjos de papel com as botas e os punhos
(o sangue cai sempre sem remorso
num silêncio incorruptível)
estou vivo num mar de plástico e excedentes
e o refrão soa distante como não haver mais distância
expande-se e reflui e explode nas minhas têmporas
no future no future no future
ergo a face o sorriso acoplado
leviathan cuspindo no chão
então digo
é meu o século do terror sem limites.
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God Save The Queen,
João Paulo Monteiro,
The Sex Pistols
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
#13 João Pedro Mésseder
DIANA KRALL
All or nothing at all
na retina do ouvido
a Diana Krall
Na cidade
um piano
E a noite?
Consente este gesto de luz?
O relógio das sombras
foi feito
para o tempo desta voz?
-- que tal como tu
diz ainda
P. S. I love you
All or nothing at all
na retina do ouvido
a Diana Krall
Na cidade
um piano
E a noite?
Consente este gesto de luz?
O relógio das sombras
foi feito
para o tempo desta voz?
-- que tal como tu
diz ainda
P. S. I love you
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Diana Krall,
João Pedro Mésseder,
The Beatles
domingo, 10 de agosto de 2008
#12 José Tolentino Mendonça
CONCERTO DOS TINDERSTICKS
Impossível dizer até que ponto
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos
pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto
dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte
Impossível dizer até que ponto
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos
pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto
dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte
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José Tolentino Mendonça,
Tindersticks
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
#11 João Pedro Mésseder
ELLA
Esta voz
-- confia --
faz da noite
o tesouro do dia
Esta voz
-- confia --
faz da noite
o tesouro do dia
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Ella Fitzgerald,
João Pedro Mésseder
sábado, 5 de julho de 2008
#10 Ricardo António Alves
RORY GALLAGHER: FOLLOW ME
A voz
grave, quase gutural,
amacia cada riff
dedilhado com nervo,
como se a vida se esvaísse
das cordas daquela fender.
Puro malte irlandês.
A voz
grave, quase gutural,
amacia cada riff
dedilhado com nervo,
como se a vida se esvaísse
das cordas daquela fender.
Puro malte irlandês.
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Ricardo António Alves,
Rory Gallagher
sábado, 3 de maio de 2008
#9 José do Carmo Francisco
S. D.
Não deixo que mais ninguém dispute estas lágrimas
Sei que morreste mas não reconheço a tua morte
Para mim não caíste nem foste para o hospital
Apenas flutuas a meio das escadas como num sonho
São apenas minhas estas silenciosas lágrimas
Que o meu inglês não traduz nem consegue traduzir
Fico com os discos e fotocopio os teus poemas
Para serem discutidos na aula e é tudo
É uma liturgia muito banal mas é minha
Não tenho outra maneira de te dizer adeus
Agora que enches de música outros territórios
Agora que alimentas uma grande saudade
Não deixo que mais ninguém dispute estas lágrimas
Sei que morreste mas não reconheço a tua morte
Para mim não caíste nem foste para o hospital
Apenas flutuas a meio das escadas como num sonho
São apenas minhas estas silenciosas lágrimas
Que o meu inglês não traduz nem consegue traduzir
Fico com os discos e fotocopio os teus poemas
Para serem discutidos na aula e é tudo
É uma liturgia muito banal mas é minha
Não tenho outra maneira de te dizer adeus
Agora que enches de música outros territórios
Agora que alimentas uma grande saudade
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José do Carmo Francisco,
Sandy Denny
sexta-feira, 25 de abril de 2008
#8 Fernando Cabrita
E DE SÚBITO, EIS
E de súbito, eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas.
Raparigas cruzavam Edgware Road inteira
perdendo-se pela Marylebone
com ares de fantasmas
e do meu lugar junto a King's Arms,
tendo por cima o cartaz
anunciando o concerto de Johnny Cash
e na mão a cerveja arrefecida,
eu podia vê-las passar e quase diria que eram belas,
e contudo mais não eram que o epítome
de toda a geração
e passavam de novo
com livros acabados de comprar
em qualquer antiquário
e com perfumes baratos
ou roupas de cores mortas
ou grandes romances de amor
por dentro das cabeças fantásticas,
fazendo nascer em mim a danada ânsia do poema.
E escrevia então um que começava «e de
súbito eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas»
e o poema doía-me
como se milhões de agulhas me florissem no corpo,
já o sol fracamente iluminava a cidade
e Edgware Road ficava deserta,
cruzada apenas por fantasmas
com ares de raparigas
que teriam decerto sido belas
e que não eram agora mais que
o epítome de toda a morte,
e eu ficava a vê-los passar,
perdendo-se para Marylebone ou Harrowby,
repetindo para que a noite me ouvisse
que
de súbito,
eis que aprendo a grande hegemonia de todas as coisas.
E de súbito, eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas.
Raparigas cruzavam Edgware Road inteira
perdendo-se pela Marylebone
com ares de fantasmas
e do meu lugar junto a King's Arms,
tendo por cima o cartaz
anunciando o concerto de Johnny Cash
e na mão a cerveja arrefecida,
eu podia vê-las passar e quase diria que eram belas,
e contudo mais não eram que o epítome
de toda a geração
e passavam de novo
com livros acabados de comprar
em qualquer antiquário
e com perfumes baratos
ou roupas de cores mortas
ou grandes romances de amor
por dentro das cabeças fantásticas,
fazendo nascer em mim a danada ânsia do poema.
E escrevia então um que começava «e de
súbito eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas»
e o poema doía-me
como se milhões de agulhas me florissem no corpo,
já o sol fracamente iluminava a cidade
e Edgware Road ficava deserta,
cruzada apenas por fantasmas
com ares de raparigas
que teriam decerto sido belas
e que não eram agora mais que
o epítome de toda a morte,
e eu ficava a vê-los passar,
perdendo-se para Marylebone ou Harrowby,
repetindo para que a noite me ouvisse
que
de súbito,
eis que aprendo a grande hegemonia de todas as coisas.
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segunda-feira, 14 de abril de 2008
#7 Manuel de Freitas
LACHRIMAE ANTIQUAE NOVAE (1604)
De mia morte vos diria
os precisos sinais
num acto de contorção. Mas
o alaúde quebrou-se,
cansado do favor do vento, e
é impossível como a alegria
a mais simples razão de dizer.
Quando o nome de Deus
me aflui resinoso aos lábios
nada quer dizer -- metáfora gasta
nos corredores da manhã,
a lembrar o silêncio das fontanas frias.
Se sabedes novas dos dias acabados
não mas digais, vos peço;
deixai que a voz ímpia de Sir
Elton John substitua hoje
as modinhas da tristeza
e a minuciosa anatomia do problema:
este líquido escuro, bilioso, que escorre
sem pressa pelos dias derradeiros
e se cristaliza às vezes
na retórica afável de quem chegou tarde.
De mia morte vos diria
os precisos sinais
num acto de contorção. Mas
o alaúde quebrou-se,
cansado do favor do vento, e
é impossível como a alegria
a mais simples razão de dizer.
Quando o nome de Deus
me aflui resinoso aos lábios
nada quer dizer -- metáfora gasta
nos corredores da manhã,
a lembrar o silêncio das fontanas frias.
Se sabedes novas dos dias acabados
não mas digais, vos peço;
deixai que a voz ímpia de Sir
Elton John substitua hoje
as modinhas da tristeza
e a minuciosa anatomia do problema:
este líquido escuro, bilioso, que escorre
sem pressa pelos dias derradeiros
e se cristaliza às vezes
na retórica afável de quem chegou tarde.
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Manuel de Freitas
segunda-feira, 7 de abril de 2008
#6 Adalberto Alves
HOME
A Simon & Garfunkel
De costas para o Plaza Hotel
Olho o Central Park
Território cruel
Onde se acendem chamas
Nos rostos marcados pela melancolia.
Kerouac e Ginsberg uivam
Alegres lobos possessos pela estrada fora
Whitman e Sandburg
Plantam florestas dentro dos grandes espaços interiores
E Cummings dá o mote de amor a Woody.
Quatro horas da tarde
Ergue-se no ar um cheiro mágico a sálvia, tomilho e salsa
Do vapor que brota das entranhas das ruas:
São dois rapazes errantes que cantam
Sábios como deuses decaídos
Os crepúsculos de que dia a dia se compõe a vida
O amor que vem e que apaga
A amizade ameaçada por águas turbulentas
E o regresso ao lar que no coração nós habitámos.
O Central Park parece o jardim do bairro que me criou
Lembro Lisboa e tenho vontade de voltar para casa.
A Simon & Garfunkel
De costas para o Plaza Hotel
Olho o Central Park
Território cruel
Onde se acendem chamas
Nos rostos marcados pela melancolia.
Kerouac e Ginsberg uivam
Alegres lobos possessos pela estrada fora
Whitman e Sandburg
Plantam florestas dentro dos grandes espaços interiores
E Cummings dá o mote de amor a Woody.
Quatro horas da tarde
Ergue-se no ar um cheiro mágico a sálvia, tomilho e salsa
Do vapor que brota das entranhas das ruas:
São dois rapazes errantes que cantam
Sábios como deuses decaídos
Os crepúsculos de que dia a dia se compõe a vida
O amor que vem e que apaga
A amizade ameaçada por águas turbulentas
E o regresso ao lar que no coração nós habitámos.
O Central Park parece o jardim do bairro que me criou
Lembro Lisboa e tenho vontade de voltar para casa.
New Yorl, somewhere, somehow
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