ALL YOU NEED IS LOVE 1
E no entanto regressamos
-- aos becos onde o sangue
insiste em não ser tocado e visto.
À espera de novos punhais. Quem sabe?
Talvez a vontade -- desejo de anulação
nos braços tranquilos de ninguém.
Ou simples obstinação da carne, a levar-nos
por onde jurámos não ir, lembrados
das vísceras e das intempéries
a que emprestámos poemas mais
ou menos maus e uma urgência igual
à que julgamos sentir agora.
O amor? Não me fodam.
Apenas um filme sem enredo
que já vimos demasiadas vezes
e que vai continuar a acabar mal
-- como a puta da vida, aliás.
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008
#22 Manuel de Freitas
ALL YOU NEED IS LOVE 2
Mas não é bem assim, dir-se-á.
Vinte e seis séculos de lírica
deviam, pelo menos, provar o contrário
-- na hipótese argilosa de esses
cadáveres afamados terem alguma coisa
a dizer-nos quanto ao melhor método
de atravessar ruas superpovoadas.
Onde eu te vi passar, meu amor,
com o lenço vermelho, os cabelos
mais curtos e as pernas que embora
tenazes herméticas te davam -- por
assim dizer -- um ar sofrível de corpo.
Não sei porque é que reparei nisso,
logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte
-- a reivindicar uma anatomia, e paz.
Mas não é bem assim, dir-se-á.
Vinte e seis séculos de lírica
deviam, pelo menos, provar o contrário
-- na hipótese argilosa de esses
cadáveres afamados terem alguma coisa
a dizer-nos quanto ao melhor método
de atravessar ruas superpovoadas.
Onde eu te vi passar, meu amor,
com o lenço vermelho, os cabelos
mais curtos e as pernas que embora
tenazes herméticas te davam -- por
assim dizer -- um ar sofrível de corpo.
Não sei porque é que reparei nisso,
logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte
-- a reivindicar uma anatomia, e paz.
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