sábado, 29 de março de 2008

#5 João Candeias

ESTÁTUAS JAZZENTES

voz extraordinária aquela entre silêncio e eco, pujante de avenidas nocturnas.
luzes acendem nas poças de chuva o seu brilho relento
para onde tomba o cigarro emudecido,
restos de desespero, soturna balada de acordes e fumos
disfarce de bruma para a noite dos delitos.
Café Bagdad -- nesta voz extraordinária entre o branco e o negro.
julgo-o filme, não o vejo, oiço as vozes,
os sons, a música, de costas para o cinema.
voz extraordinária que, imagino, trespassa a sombra
contra as paredes, do homem da gabardina negra
nos atalhos do caminho, nas encruzilhadas, e que finca os pés
na arqueologia do devir das grandes metrópoles.

pudesse eu reter toda a música do saxofone em surdina
o voo do sapateado, as palmas ritmadas,
e a voz, essa voz persistente e extraordinária
extraída das apressadas noites de amor
ou no sobressalto do dia nascendo.
também se falava muito de Brenda e de Charlie "Bird"
e depois o piano, adejante, como se fora de outro
tempo -- de outros filmes? -- de outro universo, outro destino
de coração entregue à noite onde dormem os monstros
do dia, como de dia dormem os príncipes da noite
envoltos em poalha de lantejoulas.
voz extraordinária aquela: da mão ao rosto
os olhos rendidos, atentos à música, ao corpo
até à última sílaba musical do silêncio

2 comentários:

Júlia Moura Lopes disse...

belo poema,muito bom!

RAA disse...

Integra um livro muito recomendável do autor, intitulado «Voz Descontínua», da Black Son Editores.
Um abraço.