sábado, 23 de agosto de 2008

#14 - João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

O ídolo da juventude


estou morto sobre um piano abandonado
agoniado de jazz
descrente de sonhos que não me sonhei sonhar
reincidente nesta lucidez de estar farto de moscas
vou entrando nas répteis represas do presente
rasgando anjos de papel com as botas e os punhos
(o sangue cai sempre sem remorso
num silêncio incorruptível)
estou vivo num mar de plástico e excedentes
e o refrão soa distante como não haver mais distância
expande-se e reflui e explode nas minhas têmporas
no future no future no future
ergo a face o sorriso acoplado
leviathan cuspindo no chão
então digo
é meu o século do terror sem limites.

The Sex Pistols

God Save The Queen

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

#13 João Pedro Mésseder

DIANA KRALL

All or nothing at all
na retina do ouvido
a Diana Krall

Na cidade
um piano

E a noite?
Consente este gesto de luz?

O relógio das sombras
foi feito
para o tempo desta voz?

-- que tal como tu
diz ainda
P. S. I love you

Diana Krall

All Or Nothing At All

The Beatles

P.S. I Love You

domingo, 10 de agosto de 2008

#12 José Tolentino Mendonça

CONCERTO DOS TINDERSTICKS

Impossível dizer até que ponto
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos

pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto

dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte

Tindersticks


Can We Start Again

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

#11 João Pedro Mésseder

ELLA

Esta voz
-- confia --
faz da noite
o tesouro do dia

Ella Fitzgerald

How High The Moon

sábado, 5 de julho de 2008

#10 Ricardo António Alves

RORY GALLAGHER: FOLLOW ME

A voz
grave, quase gutural,
amacia cada riff
dedilhado com nervo,
como se a vida se esvaísse
das cordas daquela fender.

Puro malte irlandês.

Rory Gallagher

Follow Me

sábado, 3 de maio de 2008

#9 José do Carmo Francisco

S. D.


Não deixo que mais ninguém dispute estas lágrimas
Sei que morreste mas não reconheço a tua morte
Para mim não caíste nem foste para o hospital
Apenas flutuas a meio das escadas como num sonho


São apenas minhas estas silenciosas lágrimas
Que o meu inglês não traduz nem consegue traduzir
Fico com os discos e fotocopio os teus poemas
Para serem discutidos na aula e é tudo


É uma liturgia muito banal mas é minha
Não tenho outra maneira de te dizer adeus
Agora que enches de música outros territórios
Agora que alimentas uma grande saudade

Sandy Denny

Late November

sexta-feira, 25 de abril de 2008

#8 Fernando Cabrita

E DE SÚBITO, EIS


E de súbito, eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas.
Raparigas cruzavam Edgware Road inteira
perdendo-se pela Marylebone
com ares de fantasmas
e do meu lugar junto a King's Arms,
tendo por cima o cartaz
anunciando o concerto de Johnny Cash
e na mão a cerveja arrefecida,
eu podia vê-las passar e quase diria que eram belas,
e contudo mais não eram que o epítome
de toda a geração
e passavam de novo
com livros acabados de comprar
em qualquer antiquário
e com perfumes baratos
ou roupas de cores mortas
ou grandes romances de amor
por dentro das cabeças fantásticas,
fazendo nascer em mim a danada ânsia do poema.
E escrevia então um que começava «e de
súbito eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas»
e o poema doía-me
como se milhões de agulhas me florissem no corpo,
já o sol fracamente iluminava a cidade
e Edgware Road ficava deserta,
cruzada apenas por fantasmas
com ares de raparigas
que teriam decerto sido belas
e que não eram agora mais que
o epítome de toda a morte,
e eu ficava a vê-los passar,
perdendo-se para Marylebone ou Harrowby,
repetindo para que a noite me ouvisse
que
de súbito,
eis que aprendo a grande hegemonia de todas as coisas.

Johnny Cash

Hurt

segunda-feira, 14 de abril de 2008

#7 Manuel de Freitas

LACHRIMAE ANTIQUAE NOVAE (1604)

De mia morte vos diria
os precisos sinais
num acto de contorção. Mas
o alaúde quebrou-se,
cansado do favor do vento, e
é impossível como a alegria
a mais simples razão de dizer.

Quando o nome de Deus
me aflui resinoso aos lábios
nada quer dizer -- metáfora gasta
nos corredores da manhã,
a lembrar o silêncio das fontanas frias.

Se sabedes novas dos dias acabados
não mas digais, vos peço;
deixai que a voz ímpia de Sir
Elton John substitua hoje
as modinhas da tristeza
e a minuciosa anatomia do problema:

este líquido escuro, bilioso, que escorre
sem pressa pelos dias derradeiros
e se cristaliza às vezes
na retórica afável de quem chegou tarde.

Valeria Mignaco & Alfonso Marín

Flow My Tears, de John Dowland

Elton John

Your Song

segunda-feira, 7 de abril de 2008

#6 Adalberto Alves

HOME

A Simon & Garfunkel

De costas para o Plaza Hotel
Olho o Central Park
Território cruel
Onde se acendem chamas
Nos rostos marcados pela melancolia.
Kerouac e Ginsberg uivam
Alegres lobos possessos pela estrada fora
Whitman e Sandburg
Plantam florestas dentro dos grandes espaços interiores
E Cummings dá o mote de amor a Woody.
Quatro horas da tarde
Ergue-se no ar um cheiro mágico a sálvia, tomilho e salsa
Do vapor que brota das entranhas das ruas:
São dois rapazes errantes que cantam
Sábios como deuses decaídos
Os crepúsculos de que dia a dia se compõe a vida
O amor que vem e que apaga
A amizade ameaçada por águas turbulentas
E o regresso ao lar que no coração nós habitámos.
O Central Park parece o jardim do bairro que me criou
Lembro Lisboa e tenho vontade de voltar para casa.
New Yorl, somewhere, somehow

Simon & Garfunkel

Homeward Bound