Noite de Lisboa com Auto-retrato e Sombra de Ian Curtis
filamentos de gelatinoso néon invadem a catedral
em celulóide do filme nocturno: a arquitectura de asas
abóbadas de vento pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem que rasteja
de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco duma geração de subúrbio
presentes aqui os jovens, com a canga nos ombros
e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o corpo estilhaça
os vidros esfregados nos ombros no peito
onde uma veia rebenta para mostrar o radioso canto
depois dança contorce-se embriagado
cobre o rosto suado com aponta dos dedos espalha
sangue e cuspo construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno
domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre
a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura
só é perceptível na súbita erecção do enforcado
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
domingo, 23 de novembro de 2008
#30 - Martins Fontes
JAZZ-BAND
As raparigas americanas,
Cada qual delas mais primorosa,
Parecem feitas de porcelanas,
De opala e ouro, de neve e rosa!
Carnes de pêssego e de açucenas,
De tanta seiva, tanto viçor,
Que, sendo frutos, essas pequenas
Têm, na verdade, gosto de flor!
Sabor de folha de árvore nova,
Rica de um sumo que retempera,
Fazem a boca de quem as prova
Cheirar a essências da primavera!
São deliciosas essas meninas,
Como os morangos ao paladar!
Ai, Doroteias, ai, Catarinas,
Com que doçura sabeis amar!
Que alacridade, que juventude,
Têm Lady Ruby, Miss Adelaide!
Como deslumbra ver a saúde
Dessas papoulas do Riverside!
E todas elas, moças e frescas,
Sem um vestígio de creme ou khol,
Enamoradas e romanescas,
Semelham cravos, sorrindo ao sol!
Independentes, com ousadia,
Sem preconceitos, nem leis mundanas,
Bendita seja vossa alegria,
Lindas mulheres americanas!
A vós, queridas dos meus desejos,
A todas, todas, louco e febril,
Envio beijos, mas tantos beijos
Quantas estrelas há no Brasil!
As raparigas americanas,
Cada qual delas mais primorosa,
Parecem feitas de porcelanas,
De opala e ouro, de neve e rosa!
Carnes de pêssego e de açucenas,
De tanta seiva, tanto viçor,
Que, sendo frutos, essas pequenas
Têm, na verdade, gosto de flor!
Sabor de folha de árvore nova,
Rica de um sumo que retempera,
Fazem a boca de quem as prova
Cheirar a essências da primavera!
São deliciosas essas meninas,
Como os morangos ao paladar!
Ai, Doroteias, ai, Catarinas,
Com que doçura sabeis amar!
Que alacridade, que juventude,
Têm Lady Ruby, Miss Adelaide!
Como deslumbra ver a saúde
Dessas papoulas do Riverside!
E todas elas, moças e frescas,
Sem um vestígio de creme ou khol,
Enamoradas e romanescas,
Semelham cravos, sorrindo ao sol!
Independentes, com ousadia,
Sem preconceitos, nem leis mundanas,
Bendita seja vossa alegria,
Lindas mulheres americanas!
A vós, queridas dos meus desejos,
A todas, todas, louco e febril,
Envio beijos, mas tantos beijos
Quantas estrelas há no Brasil!
terça-feira, 4 de novembro de 2008
# 29 - João Miguel Fernandes Jorge
THE BEACH BOYS
Aqueles cinco não eram os melhores na escola.
Todo o verão seguiam no Chrysler verde e branco
as ruas.
O aspecto do corpo tão nitidamente
contornado, a cor da pele, os cerrados olhos
cheios de anjos e demónios, de sombras de mortos,
de mulheres brancas.
Erguiam as noites pelos corredores dos bares
tão pouco espaço na esfera das visões
corpo masculino onde a poeira do verão conduz
a ideias brutas e primitivas, a extremos surpre-
endentes.
Aqueles cinco iam amarrotados no pequeno Morris.
Acompanhavam a moda no verão
cabelos, unhas, os próprios mamilos cortavam
num piedoso apego às coisas materiais.
Húmido, fantasiosos, ao seu lado o verão era mais
verão
entre as divididas esplanadas do mar.
Corriam como se fossem o aviso de uma calamidade.
A uns causavam terror
a outros davam alegria e consolação.
Aqueles cinco não eram os melhores na escola.
Todo o verão seguiam no Chrysler verde e branco
as ruas.
O aspecto do corpo tão nitidamente
contornado, a cor da pele, os cerrados olhos
cheios de anjos e demónios, de sombras de mortos,
de mulheres brancas.
Erguiam as noites pelos corredores dos bares
tão pouco espaço na esfera das visões
corpo masculino onde a poeira do verão conduz
a ideias brutas e primitivas, a extremos surpre-
endentes.
Aqueles cinco iam amarrotados no pequeno Morris.
Acompanhavam a moda no verão
cabelos, unhas, os próprios mamilos cortavam
num piedoso apego às coisas materiais.
Húmido, fantasiosos, ao seu lado o verão era mais
verão
entre as divididas esplanadas do mar.
Corriam como se fossem o aviso de uma calamidade.
A uns causavam terror
a outros davam alegria e consolação.
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The Beach Boys
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
#28 - Fernando Pinto do Amaral
RIBAS
Não era bem a minha vida. Um gesto
afasta de repente o que sentimos, vai
por uma rua estreita como um gato
cinzento. O nevoeiro
descia sobre a praia, aproximava
o mar do céu. A minha mãe
passara ali os verões da sua longa
infância.
Sem dó nem piedade -- e todavia,
às vezes não sabia resistir:
zero um sete cinco nove,
mas faltava a coragem. Mais cruel
só o gume da espada, o silêncio que brilha
em olhos muito belos, quase iguais
aos teus. Adolescentes
surgiam pouco a pouco 'round midnight,
enrolando mortalhas -- tão fácil
respirar esse cheiro inocente, esquecer
o corpo, a alma e outras sempre inúteis,
insensatas razões.
Usavam roupas leves, confrontavam
teorias de engate. Voltei-me:
intermitentes luzes davam espaço
a uma sombra que eras tu -- devias
conhecer bem aquela casa,
as paredes caiadas, a porta pintada
de verde.
«Solitude stands in the doorway.» A voz
ignorava a passagem das horas,
todo o o bem, todo o mal, as promessas
que há num copo de gin quando ficamos
sozinhos, face a face
com o tempo que nos resta: «eu também sou
um sonho fugitivo.»
Não era bem a minha vida, apenas
um obscuro entusiasmo,
as lágrimas correndo sobre o rosto.
Não era bem a minha vida. Um gesto
afasta de repente o que sentimos, vai
por uma rua estreita como um gato
cinzento. O nevoeiro
descia sobre a praia, aproximava
o mar do céu. A minha mãe
passara ali os verões da sua longa
infância.
Sem dó nem piedade -- e todavia,
às vezes não sabia resistir:
zero um sete cinco nove,
mas faltava a coragem. Mais cruel
só o gume da espada, o silêncio que brilha
em olhos muito belos, quase iguais
aos teus. Adolescentes
surgiam pouco a pouco 'round midnight,
enrolando mortalhas -- tão fácil
respirar esse cheiro inocente, esquecer
o corpo, a alma e outras sempre inúteis,
insensatas razões.
Usavam roupas leves, confrontavam
teorias de engate. Voltei-me:
intermitentes luzes davam espaço
a uma sombra que eras tu -- devias
conhecer bem aquela casa,
as paredes caiadas, a porta pintada
de verde.
«Solitude stands in the doorway.» A voz
ignorava a passagem das horas,
todo o o bem, todo o mal, as promessas
que há num copo de gin quando ficamos
sozinhos, face a face
com o tempo que nos resta: «eu também sou
um sonho fugitivo.»
Não era bem a minha vida, apenas
um obscuro entusiasmo,
as lágrimas correndo sobre o rosto.
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Fernando Pinto do Amaral
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
#27 - Fernando Grade
A MÚSICA DAS TREVAS
Através dos vidros quebrados passou o anjo
e era apenas um nome em pânico, um brusco fender
sangrento de flores.
Anjo serve somente para pensar
que o fogo na floresta esta vez não foi muito cruel:
é uma palavra que esconde as calemas
e traz um cheiro de fruto à pele das raparigas
mas por muito bonito que o som seja
e viva carinhoso, íntimo entre as outras palavras
o mar ruge sempre e rasga as rochas
engole casas de pedra ou palha
O MAR NÃO NADA COM ANJOS.
Trazias (é verdade) o nome de anjo
para a minha vida. Era um bicho apaixonante com barbatanas e
guelras e tem passado o tempo a retalhar rosas.
Esse bicho poderás ser tu, leitora do caos
que te masturbavas há 20 anos ao som
dos meus versos lusos, à viola. Sei que vais envelhecendo
ao ritmo com que o Bob Dylan envelhece,
nos cabelos pretos que perco
em países de cidra e mel.
Através do medo em cobra passou o anjo
entre prédios novos e tristes que cheiram a taberna
mas a música das trevas zela por nós.
Através dos vidros quebrados passou o anjo
e era apenas um nome em pânico, um brusco fender
sangrento de flores.
Anjo serve somente para pensar
que o fogo na floresta esta vez não foi muito cruel:
é uma palavra que esconde as calemas
e traz um cheiro de fruto à pele das raparigas
mas por muito bonito que o som seja
e viva carinhoso, íntimo entre as outras palavras
o mar ruge sempre e rasga as rochas
engole casas de pedra ou palha
O MAR NÃO NADA COM ANJOS.
Trazias (é verdade) o nome de anjo
para a minha vida. Era um bicho apaixonante com barbatanas e
guelras e tem passado o tempo a retalhar rosas.
Esse bicho poderás ser tu, leitora do caos
que te masturbavas há 20 anos ao som
dos meus versos lusos, à viola. Sei que vais envelhecendo
ao ritmo com que o Bob Dylan envelhece,
nos cabelos pretos que perco
em países de cidra e mel.
Através do medo em cobra passou o anjo
entre prédios novos e tristes que cheiram a taberna
mas a música das trevas zela por nós.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
#26 - Levi Condinho
PENTECOSTES
O rosto oval de um negro
sósia de um mais escuro Milt Jackson -- o do vibrafone / carroussel
e o dela «pálida e loira muito loira e viva»
amorosa círculo aura sem contornos -- Grunewald --¨
entre faces e lábios e mãos trocando-se
axilas venusianas em curvatura flutuante
místicos sonâmbulos
corpo a corpo em sentada reclinação
sobre os degraus do altar lateral
cópula do incenso com a evolução do caril
o órgão e a flauta no alto coro
Telemann(eando) aos quatro ventos do templo
derramando sobre o amor dos amantes
pétalas fulvas de gladíolo
como outrora eu vi
-- eu vi -- nessas claras manhãs de Pentecostes
O rosto oval de um negro
sósia de um mais escuro Milt Jackson -- o do vibrafone / carroussel
e o dela «pálida e loira muito loira e viva»
amorosa círculo aura sem contornos -- Grunewald --¨
entre faces e lábios e mãos trocando-se
axilas venusianas em curvatura flutuante
místicos sonâmbulos
corpo a corpo em sentada reclinação
sobre os degraus do altar lateral
cópula do incenso com a evolução do caril
o órgão e a flauta no alto coro
Telemann(eando) aos quatro ventos do templo
derramando sobre o amor dos amantes
pétalas fulvas de gladíolo
como outrora eu vi
-- eu vi -- nessas claras manhãs de Pentecostes
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quarta-feira, 1 de outubro de 2008
#25 - Alberto de Lacerda
OUVINDO RAVI SHANKAR EM LONDRES
No tumulto ardente do teu canto
Existe a calma que eu necessito
É de dentro que eu preciso de sentir
As montanhas os planaltos e o fogo
As espadas circulares do fogo
No tumulto ardente do teu canto
Existe a calma que eu necessito
É de dentro que eu preciso de sentir
As montanhas os planaltos e o fogo
As espadas circulares do fogo
Junho de 1966
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
#24 - Manuel de Freitas
Gloomy Sunday
Já em 1957 não eras tu que cantavas,
mas antes a morte por ti
-- e ninguém canta melhor. De permeio,
gestos simples de álcool somente
e a heroína gasta nas veias necessariamente
cansadas de um destino de aluguer
-- mais barato destino a esboroar-se na noite.
Ficaram imunes as trevas desse céu
onde só a dor é desmesura bastante
-- e delas renasce um timbre inconsolável
a lembrar-nos a morte cantante,
o mais que humano sentido de deslumbrante
fracasso. Essa mesma seringa já pronta
com que roubavas aos dias o seu azul forte,
uma cor demolida, um tão triste azul.
Como disse Lowry. A verdade encontrá-la-íamos
talvez na sombra perdida de todas as garrafas
com que um dia renunciámos ao mundo: Johnnie
Walker, Four Roses, Jameson, Jack Daniels,
Moskovskaya, Captain Morgan, José Cuervo, etc.
Um infindável folclore da agonia, desta
suave agonia que só repousaria na mais perversa
das luzes, mas também ela parecida com a morte.
Com a morte que permanece já nem palavra
sequer, mas baba imensamente repetida,
recalcada ou vomitada. Tanto faz,
único assunto em que as mãos depõem
a sua desesperante ferrugem
-- a que não pôde deter um saxofone
presidente demitindo-se pouco antes de ti.
Quando uma canção bastava afinal.
A própria morte cantando nos arredores
inúteis de uma lágrima furtiva,
sem rosto capaz. Essa tão longe canção azul
ainda, da cor dizimada que o pânico tem.
Da cor de um beijo dado mais tarde.
Já em 1957 não eras tu que cantavas,
mas antes a morte por ti
-- e ninguém canta melhor. De permeio,
gestos simples de álcool somente
e a heroína gasta nas veias necessariamente
cansadas de um destino de aluguer
-- mais barato destino a esboroar-se na noite.
Ficaram imunes as trevas desse céu
onde só a dor é desmesura bastante
-- e delas renasce um timbre inconsolável
a lembrar-nos a morte cantante,
o mais que humano sentido de deslumbrante
fracasso. Essa mesma seringa já pronta
com que roubavas aos dias o seu azul forte,
uma cor demolida, um tão triste azul.
Como disse Lowry. A verdade encontrá-la-íamos
talvez na sombra perdida de todas as garrafas
com que um dia renunciámos ao mundo: Johnnie
Walker, Four Roses, Jameson, Jack Daniels,
Moskovskaya, Captain Morgan, José Cuervo, etc.
Um infindável folclore da agonia, desta
suave agonia que só repousaria na mais perversa
das luzes, mas também ela parecida com a morte.
Com a morte que permanece já nem palavra
sequer, mas baba imensamente repetida,
recalcada ou vomitada. Tanto faz,
único assunto em que as mãos depõem
a sua desesperante ferrugem
-- a que não pôde deter um saxofone
presidente demitindo-se pouco antes de ti.
Quando uma canção bastava afinal.
A própria morte cantando nos arredores
inúteis de uma lágrima furtiva,
sem rosto capaz. Essa tão longe canção azul
ainda, da cor dizimada que o pânico tem.
Da cor de um beijo dado mais tarde.
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Manuel de Freitas
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
#23 Manuel de Freitas
ALL YOU NEED IS LOVE 1
E no entanto regressamos
-- aos becos onde o sangue
insiste em não ser tocado e visto.
À espera de novos punhais. Quem sabe?
Talvez a vontade -- desejo de anulação
nos braços tranquilos de ninguém.
Ou simples obstinação da carne, a levar-nos
por onde jurámos não ir, lembrados
das vísceras e das intempéries
a que emprestámos poemas mais
ou menos maus e uma urgência igual
à que julgamos sentir agora.
O amor? Não me fodam.
Apenas um filme sem enredo
que já vimos demasiadas vezes
e que vai continuar a acabar mal
-- como a puta da vida, aliás.
E no entanto regressamos
-- aos becos onde o sangue
insiste em não ser tocado e visto.
À espera de novos punhais. Quem sabe?
Talvez a vontade -- desejo de anulação
nos braços tranquilos de ninguém.
Ou simples obstinação da carne, a levar-nos
por onde jurámos não ir, lembrados
das vísceras e das intempéries
a que emprestámos poemas mais
ou menos maus e uma urgência igual
à que julgamos sentir agora.
O amor? Não me fodam.
Apenas um filme sem enredo
que já vimos demasiadas vezes
e que vai continuar a acabar mal
-- como a puta da vida, aliás.
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