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sábado, 21 de fevereiro de 2009

#36 Manuel de Freitas

LADY DAY SINGS SOLITUDE

Amanhece, como um parto inútil e reticente.
Suponhamos que estou vivo, na casa
tão branca e vazia, com este corpo em trepasse
-- quase meu. O irritante chilreio dos pássaros
poderia ter um encanto anacrónico se acaso o tivesse.
mas mesmo ele será daqui a pouco sufocado
pelo ruído do primeiro avião
que passará rasante vindo de longes terras
onde se é mais feliz por delegação.
Saúdo a manhã como quem dispensava vê-la,
copo de whisky barato na mão
para tentar tornar menos barata
a literatura vã que daqui possa sair.

A pouco e pouco, o flagelo da luz
conquista a casa e reaparecem
os nomes dos livros, os cinzeiros cheios,
a mágoa insuportavelmente banal
de mais um dia que começa e que não será
talvez o último -- embora estatísticas
várias comprovem que a morte existe
(são poucos é os que se apercebem disso).

A noite passou, sem sono nem alegria.
E eu esqueci-me de lavar a louça
e de encontrar um sentido para a vida
(truque poético bastante conhecido).
O amor não bateu à porta com as suas mãos
frágeis e desonestas, nenhum amigo
-- desses que não tenho -- quis ludibriar
a sua solidão bebendo um copo comigo.
limitei-me a folhear alguns livros,
com o cansaço pévio de saber
que os vou ler. Pus em dia a correspondência
cada vez mais escassa, ofício de afectos
fingidos, calculados silêncios, fórmulas
feitas. E ouvi música desolada, que
é a parte de Deus que melhor conheço.

Fiz não o que pude, mas aquilo
que me permitiu o fluente nada dos gestos.
A claridade é agora fulminante e eu
não tive nenhum êxtase místico,
coisa tão decorativa em esgares, não
deparei com nenhum programa social
que me parecesse exequível, não
aderi a qualquer crença política
para enfim conhecer Bruxelas.
Não me lembrei de nada que valesse a pena.

Fiquei em casa sozinho, no renovado
esforço de não reparar em como
é fétido tudo. E embebedei-me,
como sempre faço quando me sinto
sentir (o que por azar é frequente).
Não fechei as janelas, deixei a luz corromper-me.

Há talvez uma harmonia bizarra
no modo como o pó assenta nos móveis,
uma razão insondável para as nuvens
que conspurcam o vazio do céu,
um motivo confrangedor para eu respirar
ainda, sem jeito nenhum para a morte.

Não sei. Vivi mais um dia, inglório
como os que já foram, fútil como os que virão.
Acariciei o vazio com mãos de seda quebradas
e não me queixei nem sorri
(de resto, porque haveria de o fazer?).

outro avião passou, trazendo ou levando
pessoas que é suposto terem alma,
essa indefinível e funesta coisa
sem a qual este poema desabaria
antes mesmo de se ter começado. Pouco
se perderia, aliás, pois não é nas palavras
que o que se perde regressa alguma vez.
Sucessivos malogros, interstícios vagos
do que nunca poderá ser
ou se dissipou em remorso e ausência.

A vista sobre Monsanto é agora quase bela,
mas não me lembro de ter sido feliz
(há ainda obscenidades que desconheço).
O sol passeia-se sobre todos os telhados
que daqui se lobrigam e eu perscruto atento
a dor que há nisso e em tudo.
Não dormi, estou até demasiado desperto,
a olhar para mim sem me ver. É curioso,
ou chega quase a sê-lo: são precisos
mais de vinte cigarros e uma garrafa inteira
de whisky para escrever um poema
que de sublime terá a intenção -- ou nem isso.
A morte pode esperar,
hei-de estar lá a horas, finalmente anónimo,
capaz de desfrutar a mais ampla morada,
a mais verdadeira e total.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

#24 - Manuel de Freitas

Gloomy Sunday


Já em 1957 não eras tu que cantavas,
mas antes a morte por ti
-- e ninguém canta melhor. De permeio,
gestos simples de álcool somente
e a heroína gasta nas veias necessariamente
cansadas de um destino de aluguer
-- mais barato destino a esboroar-se na noite.


Ficaram imunes as trevas desse céu
onde só a dor é desmesura bastante
-- e delas renasce um timbre inconsolável
a lembrar-nos a morte cantante,
o mais que humano sentido de deslumbrante
fracasso. Essa mesma seringa já pronta
com que roubavas aos dias o seu azul forte,
uma cor demolida, um tão triste azul.

Como disse Lowry. A verdade encontrá-la-íamos
talvez na sombra perdida de todas as garrafas
com que um dia renunciámos ao mundo: Johnnie
Walker, Four Roses, Jameson, Jack Daniels,
Moskovskaya, Captain Morgan, José Cuervo, etc.
Um infindável folclore da agonia, desta
suave agonia que só repousaria na mais perversa
das luzes, mas também ela parecida com a morte.

Com a morte que permanece já nem palavra
sequer, mas baba imensamente repetida,
recalcada ou vomitada. Tanto faz,
único assunto em que as mãos depõem
a sua desesperante ferrugem
-- a que não pôde deter um saxofone
presidente demitindo-se pouco antes de ti.

Quando uma canção bastava afinal.
A própria morte cantando nos arredores
inúteis de uma lágrima furtiva,
sem rosto capaz. Essa tão longe canção azul
ainda, da cor dizimada que o pânico tem.

Da cor de um beijo dado mais tarde.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

#23 Manuel de Freitas

ALL YOU NEED IS LOVE 1

E no entanto regressamos
-- aos becos onde o sangue
insiste em não ser tocado e visto.
À espera de novos punhais. Quem sabe?

Talvez a vontade -- desejo de anulação
nos braços tranquilos de ninguém.
Ou simples obstinação da carne, a levar-nos
por onde jurámos não ir, lembrados
das vísceras e das intempéries
a que emprestámos poemas mais
ou menos maus e uma urgência igual
à que julgamos sentir agora.

O amor? Não me fodam.
Apenas um filme sem enredo
que já vimos demasiadas vezes
e que vai continuar a acabar mal

-- como a puta da vida, aliás.

#22 Manuel de Freitas

ALL YOU NEED IS LOVE 2

Mas não é bem assim, dir-se-á.
Vinte e seis séculos de lírica
deviam, pelo menos, provar o contrário
-- na hipótese argilosa de esses
cadáveres afamados terem alguma coisa
a dizer-nos quanto ao melhor método
de atravessar ruas superpovoadas.

Onde eu te vi passar, meu amor,
com o lenço vermelho, os cabelos
mais curtos e as pernas que embora
tenazes herméticas te davam -- por
assim dizer -- um ar sofrível de corpo.

Não sei porque é que reparei nisso,
logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte
-- a reivindicar uma anatomia, e paz.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

#7 Manuel de Freitas

LACHRIMAE ANTIQUAE NOVAE (1604)

De mia morte vos diria
os precisos sinais
num acto de contorção. Mas
o alaúde quebrou-se,
cansado do favor do vento, e
é impossível como a alegria
a mais simples razão de dizer.

Quando o nome de Deus
me aflui resinoso aos lábios
nada quer dizer -- metáfora gasta
nos corredores da manhã,
a lembrar o silêncio das fontanas frias.

Se sabedes novas dos dias acabados
não mas digais, vos peço;
deixai que a voz ímpia de Sir
Elton John substitua hoje
as modinhas da tristeza
e a minuciosa anatomia do problema:

este líquido escuro, bilioso, que escorre
sem pressa pelos dias derradeiros
e se cristaliza às vezes
na retórica afável de quem chegou tarde.