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sábado, 11 de julho de 2009

# 43 João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

EUROPA

sentes o vento no sopé da estátua
desdizendo o sal
de que foi feito o excesso e a renúncia
a gasta memória de preces demasiado escutadas
cavalo enlouquecido
pelo orgulho de empédocles --
ogni viltà convien che quia sia morta.
ouço a respiração densa dos séculos
os homens calcaram o seu próximo calcularam
essa incerta rota do ouro e do cânhamo --
fusão das calotes na imensidão
a cotovia bailou com o urso
-- doía a semente das gerações lançada
na terra ferida
pelo teu riso de peste e excomunhão
águia bêbada de amor
lúbrica e cúpida meretríssima senhora
da pólvora e das insígnias
da razão.
naufragaste com sepúlveda
numa impremeditada nudez própria agora
selling england by the pound
acaso te reconheças por imagens cruas
e a serpente da astúcia troçou do teu meio-dia
num lacht die welt der grause vorhang riss
die hochzeit kommt fur licht und finsterniss.

domingo, 17 de maio de 2009

#41 - João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

Hashish

a cabeça bate lateralmente (um som cavo)
as pernas flectem no esboço de um passo
vagas alternas vibram no ar
a luz multicolor e caleidoscópica
modela algo que é ainda um espaço posto que
rarefeito (ou sintético?)
ouço música tocar (possivelmente john cale)
longe lá ainda
a percepção inquieta de outros sorrisos sinceros e afáveis.

segunda-feira, 30 de março de 2009

#39 - João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

Perigo de vida

«There's a party in my mind
and I hope it never stops»

TALKING HEADS
«Fear of Music»

as mãos no presente não se iludem
tremem os dedos aturdidos
os cigarros são vozes demasiado escutadas
confundem-se seus solilóquios sempre lentos e acerados
degolar a irmã não é excitante
o copo rebola de riso pelo chão
velhos pederastas fizeram-me propostas nada obscenas
tornei a ser sovado na rua
com naturalidade
the grasshopper lies heavy the grasshopper lies heavy
subir escadas talvez onde o irreconhecível
e pendurar-me no espaço com os headphones postos
vozes roucas estragos visíveis
saltar de combóios em andamento é fácil
quando se é jovem os avisos perdem-se
no diálogo dos gestos e asserções lugares incomuns
resgatar final
a imediata solidão própria nem muito fiel
a precaridade do ser
não há árvores imarcescíveis ruy belo.

domingo, 11 de janeiro de 2009

#33 João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

Introdução à teoria das catástrofes

o quark provavelmente é cindível
e nunca haveremos de perceber grande coisa
da economia da matéria informação entropia calor
não procures a beleza resiste
a vozes que não te chamam nem escutam
cresce e organiza-te.

em verdade vivo numa era de trevas --
dizia o b. b. (1898-1956) --
uma palavra que não seja dúplice é um absurdo
as ciências propõem jogos de azar
os políticos sorriem
e uma nuvem pousou no coração da europa
carregada de pensamentos secretos que
se partilham já sem horror.
springsteen em minneapolis e a juventus
no communale há uma vibração eléctrica no ar
sinto-a passar ela
sacode o coração das multidões
e este bate em uníssono brutalmente
sen sentido.

sábado, 23 de agosto de 2008

#14 - João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

O ídolo da juventude


estou morto sobre um piano abandonado
agoniado de jazz
descrente de sonhos que não me sonhei sonhar
reincidente nesta lucidez de estar farto de moscas
vou entrando nas répteis represas do presente
rasgando anjos de papel com as botas e os punhos
(o sangue cai sempre sem remorso
num silêncio incorruptível)
estou vivo num mar de plástico e excedentes
e o refrão soa distante como não haver mais distância
expande-se e reflui e explode nas minhas têmporas
no future no future no future
ergo a face o sorriso acoplado
leviathan cuspindo no chão
então digo
é meu o século do terror sem limites.

segunda-feira, 24 de março de 2008

#4 João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

DISTANTE

«You'd better run and
join your brother John»

GENESIS
«The Lamb Lies Down On Broadway»

as horas as horas
como sombras
de um silêncio antigo para lá da memória
a minha carne dispersa
retém um nome acometido nas ruas --
thorem
meu irmão john espera-me
nessa noite de todas as viagens
ancoradas por um sopro no tempo
espera-me lá muito longe e nessa estranhada lonjura
é o seu ombro
que espera o meu
os seus olhos que procuram nos meus
reler a mesma indeclinável distância
parto agora
é que as luzes da cidade se extinguem
e os meus passos ecoam por dentro das casas.