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domingo, 1 de fevereiro de 2009

#35 - Levi Condinho

RANHURAS


Ranhuras no sótão
rascunhos na gaveta tarde na noite só
dormem todos e estão bem enquanto dormem
há uma nódoa negra no Alentejo
como podia ser a minha camisa inocente
um voo planante e redondo de andorinha
uma pobre coruja nunca socializada
na pérfida mente da Humanidade
ranhuras na alma silvo de comboio de ferro
rasgar do vinho nas tripas iradas
o fato branco do objector de consciência na arca
e a tristeza da boina vermelha
de um enorme campónio feito comando dos infernos
um jovem saturado de heroína
à espera do Lou Reed que o não salvará
porque "só há saída pelo fundo" (Cristovam Pavia)


Bach regressa sempre como se fora Deus

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

#26 - Levi Condinho

PENTECOSTES

O rosto oval de um negro
sósia de um mais escuro Milt Jackson -- o do vibrafone / carroussel
e o dela «pálida e loira muito loira e viva»
amorosa círculo aura sem contornos -- Grunewald --¨
entre faces e lábios e mãos trocando-se
axilas venusianas em curvatura flutuante
místicos sonâmbulos
corpo a corpo em sentada reclinação
sobre os degraus do altar lateral
cópula do incenso com a evolução do caril
o órgão e a flauta no alto coro
Telemann(eando) aos quatro ventos do templo
derramando sobre o amor dos amantes
pétalas fulvas de gladíolo
como outrora eu vi
-- eu vi -- nessas claras manhãs de Pentecostes

sábado, 30 de agosto de 2008

#16 - Levi Condinho

O VELHO AMOR


Nem sempre um saxofone anuncia a Páscoa
mas por aqui se sobem descendo
as curvas e contracurvas da senda
que a um calvário conduz serpenteando
contra o martírio a cruz os cravos os espinhos
a senda da radiosa e branca alegria
da alegria de anunciações matinais
-- nocturna seja a música --
pois também naqueles lábios Deus habitou
os de Julian Adderley -- recuso dizer Cannonball
-- alegria é paz
-- alegria é luz
e mais recuso a calúnia de blasfemo


nem sempre um saxofone foi obra do diabo
também o diabo celebrará a Páscoa
daquele que tentou sem vencer
desistindo -- vade retro -- pela fuga
ou por um excesso de amor magoado incompreendido
(oh vilipendiado Lúcifer)

jazz não é chaga sulfúrea de vício lúgubre
senão vede o coração pulsando
copulando no contrabaixo
grande esquife mugidor generoso corpo/caixa
vede pés e mão do baterista como esfregam
a matéria levitante
entre o éter e o sangue
buscando conciliação por dentro do tempo cerrado
(matemática linear paramentada em artifícios)


que mais poderia Deus querer
na grande falta da sua completa solidão
senão esta invenção pascal do jazz
para o fim do seu imenso tédio

domingo, 23 de março de 2008

#3 Levi Condinho

DIREITO À PROPRIEDADE


Sou contra a propriedade privada
há no entanto objectos que são mesmo meus
um garrafão de vinho sempre disponível
discos do Bach do Archie Shepp ou do Zappa
o «Pela Estrada Fora» do Jack Kerouac
as «Poesias» de Álvaro de Campos
o «Ulisses» do Joyce
o «Outono em Pequim» do Boris Vian
o «Eros e Civilização» do Marcuse
a «Apresentação do Rosto» do Herberto Helder
os «Trópicos» do Henry Miller
o «Diário de um Ladrão» do Genet etc. etc.
sobretudo sobretudo
os 3 simpáticos companheiros
que tenho no meio das pernas