ST. QUINTIN AVENUE
Na fria noite de Fevereiro,
passando já sem ler
as páginas de um qualquer Hammet,
recordo as ilhas ao sul do meu país
onde tudo foi luz
e brevidade
e a brancura delas ao longe ainda me perturba.
Vejo o fogo,
acidentado e terrivelmente eterno,
tremente,
aprisionado na lareira
como um sábio ou um poeta
entre a vastidão de um sonho
e a correria dos dias.
Sonhos, palavras, sonhos...
Quantos e que sonhos vão talvez vogando
nestes quartos
desta velha casa de St. Quintin Avenue?
Quantos ideais a si mesmo se entretecem
num bordado agreste
de noites e silêncios?
Que pensará a velha senhora do rés-do-chão
que só dificilmente entrevejo
no sombrio crepúsculo das cinco horas
recolhendo os seus gatos
ou o jornal à porta de casa?
Que geniais ou insensatos
serão os sonhos das duas jovens espanholas
do quarto já ao lado
que constantemente me pedem lhes troque
moedas para longínquos telefonemas,
que discutem e gritam e se agridem
até que a polícia as venha buscar de madrugada
e regressam pela manhã
de novo amigas?
Que difíceis planos congeminam
para toda a existência breve?
Ou nada mais querem
afinal
que o alegre sabor dos dias
e os silêncio das almas
por entre o frio londrino de Fevereiro?
E o esguio rodesiano do segundo andar
que raramente deixa ouvir do quarto
um qualquer ruído,
descendo de quando em quando
tão somente por detrás
de uns óculos tímidos?
Que futuro traça no arisco círculo das tardes
e das noites,
palmilhando a neve lá de fora?
Recordo pois as ilhas
que foram já imensas caravelas
e celebradas melodias,
o verão sorridente e antigo,
demorando na amizade da sombra.
Oiço-lhes as antiquíssimas flautas
pacificamente erguidas na escuridão
e no silêncio, os sussurros dos amantes
um no outro descobertos,
o som português do mar
afeiçoando aos litorais a sua mão
de luar e espuma.
Quantos sonhos, como fantasmas,
estarão por esta hora
espreitando a rua
por detrás de janelas e cortinas,
olhando o movimento ténue dos carros
e a deserção dos pubs
à nocturna hora?
Em silêncio os tento adivinhar
entre a memória
de juventude e fogos.
Ao fundo do corredor vive Abigail
de quem só sei o nome e que está só.
Falamos às vezes
de coisas vazias,
transitórios vizinhos que somos
parando de tempos em tempos no mesmo degrau
da mesma escada
que a lado nenhum conduz.
É loira e da sua janela aberta às vezes
para o triste quintal das traseiras
saiem sons de Joe Cocker
numa surdina metálica.
Que sonhos serão os dela,
no coração acomodados?
Que coisas estranhas e hábeis verá
quando ao fim da tarde
deixa perder-se no horizonte de casas e ruas
o olhar cansado?
Faz frio como só Fevereiro sabe
e fecho o livro.
Já nem leio,
jé nem entendo os sinais
e os dizeres.
Sós as ilhas me voltam à lembrança pátria,
brancas e frágeis
como a tarde dos tempos.
Só as ilhas,
as ilhas,
as ilhas...
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sexta-feira, 12 de junho de 2009
terça-feira, 14 de abril de 2009
#40 - Fernando Cabrita
A PELE DOS DIAS
Eis a pele dos dias, frágil
e cinzenta como o vasto palco
do céu onde decorrem nuvens e pombos,
ou a subterrânea trepidação da cidade
cruzada de comboios entre Richmond e Upminster.
Tudo tem aqui essa fragilidade
de cinza, os carros e as árvores,
os parques e as fontes,
as grades e as luzes
de súbito declaradas como fogos,
o semblante turvo das paredes,
o regresso a casa ao entardecer,
a juventude já morando para a eternidade
nos salões do espírito.
Mas há o bálsamo sagrado dos sonhos,
a imaginação galgante os doridos rochedos do real,
Simon e Garfunkel sabendo a infância
no fundo limite do segredo do som,
a recordação de um poema de Herberto Helder
ou um amor adiado regressando à memória
acesa pelo crepúsculo,
um cheiro ainda a verão no limite da alma,
uma mão na esquina do olhar
acenando como uma deusa que nos houvesse
sido prometida.
Sinto que o tempo se escoa a cada passo
ou que a cera da idade aos poucos
se derrete.
Eis como tudo é, fragil e cinzento
como a estranha pele dos dias.
Eis a pele dos dias, frágil
e cinzenta como o vasto palco
do céu onde decorrem nuvens e pombos,
ou a subterrânea trepidação da cidade
cruzada de comboios entre Richmond e Upminster.
Tudo tem aqui essa fragilidade
de cinza, os carros e as árvores,
os parques e as fontes,
as grades e as luzes
de súbito declaradas como fogos,
o semblante turvo das paredes,
o regresso a casa ao entardecer,
a juventude já morando para a eternidade
nos salões do espírito.
Mas há o bálsamo sagrado dos sonhos,
a imaginação galgante os doridos rochedos do real,
Simon e Garfunkel sabendo a infância
no fundo limite do segredo do som,
a recordação de um poema de Herberto Helder
ou um amor adiado regressando à memória
acesa pelo crepúsculo,
um cheiro ainda a verão no limite da alma,
uma mão na esquina do olhar
acenando como uma deusa que nos houvesse
sido prometida.
Sinto que o tempo se escoa a cada passo
ou que a cera da idade aos poucos
se derrete.
Eis como tudo é, fragil e cinzento
como a estranha pele dos dias.
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sábado, 28 de fevereiro de 2009
#37 - Fernando Cabrita
LADBROKE GROVE
Tinham as húmidas mãos
quando os vi
descansadas sobre os dias
como se a neve que lhes dourasse os ombros
não fosse mais que a morte esperada
e no entanto adiada
a palavra longínqua que os vendavais abafaram
a carta do continente
que não falava de águias ou de tâmaras
nem sugeria as doces primaveras.
Erravam
os braços como galhos caídos na alta invernia
quando os comboios assomavam
o seu líquido assobio
no frio das manhãs
o chá quente com leite fumegando
entre os dedos assombrosos.
Falavam com a voz rouca dos gelos imemoriais
com a angústia dormida na noite dos tempos
junto ao coração sem nexo
sussurando os sonhos infantis
que caminhavam por entre o sono e os farrapos
como as baratas nas garrafas vazias da esperança
e nas pequenas pontas de cigarro
fumadas e cuspidas
um velho cachecol como uma vaga
que assolasse os píncaros do sossego.
Tinham as húmidas mãos
quando os vi
aquecendo uma na outra as veias grossas
a lembrança de coisa nenhuma
doentes de gozo
sidérios
misteriosos
os olhos cravados na negrura da face
a fruta moída pelos sapatos gastos
a conversa sem senso
sem gosto
os gestos fundidos nas paredes sujas
da longa avenida
os escuros portões
os becos transversais.
Tinham
quando os vi
um loiro kebab arrefecendo nas mãos
os doentes cantando a sinfonia gelada das tardes
recebendo ainda as cartas que já nem liam
trauteando Cohen entre a nebilna
como pássaros de medo e escuridão
áugures do silêncio e do segredo
calados como templos antigos demorados nas planícies
mas eternos e puros
como a chama das civilizações
os olhos crispados na velocidade das horas
as húmidas mãos deitadas
quando os vi
na tremenda passagem dos dias em direcção à morte.
Tinham as húmidas mãos
quando os vi
descansadas sobre os dias
como se a neve que lhes dourasse os ombros
não fosse mais que a morte esperada
e no entanto adiada
a palavra longínqua que os vendavais abafaram
a carta do continente
que não falava de águias ou de tâmaras
nem sugeria as doces primaveras.
Erravam
os braços como galhos caídos na alta invernia
quando os comboios assomavam
o seu líquido assobio
no frio das manhãs
o chá quente com leite fumegando
entre os dedos assombrosos.
Falavam com a voz rouca dos gelos imemoriais
com a angústia dormida na noite dos tempos
junto ao coração sem nexo
sussurando os sonhos infantis
que caminhavam por entre o sono e os farrapos
como as baratas nas garrafas vazias da esperança
e nas pequenas pontas de cigarro
fumadas e cuspidas
um velho cachecol como uma vaga
que assolasse os píncaros do sossego.
Tinham as húmidas mãos
quando os vi
aquecendo uma na outra as veias grossas
a lembrança de coisa nenhuma
doentes de gozo
sidérios
misteriosos
os olhos cravados na negrura da face
a fruta moída pelos sapatos gastos
a conversa sem senso
sem gosto
os gestos fundidos nas paredes sujas
da longa avenida
os escuros portões
os becos transversais.
Tinham
quando os vi
um loiro kebab arrefecendo nas mãos
os doentes cantando a sinfonia gelada das tardes
recebendo ainda as cartas que já nem liam
trauteando Cohen entre a nebilna
como pássaros de medo e escuridão
áugures do silêncio e do segredo
calados como templos antigos demorados nas planícies
mas eternos e puros
como a chama das civilizações
os olhos crispados na velocidade das horas
as húmidas mãos deitadas
quando os vi
na tremenda passagem dos dias em direcção à morte.
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sexta-feira, 25 de abril de 2008
#8 Fernando Cabrita
E DE SÚBITO, EIS
E de súbito, eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas.
Raparigas cruzavam Edgware Road inteira
perdendo-se pela Marylebone
com ares de fantasmas
e do meu lugar junto a King's Arms,
tendo por cima o cartaz
anunciando o concerto de Johnny Cash
e na mão a cerveja arrefecida,
eu podia vê-las passar e quase diria que eram belas,
e contudo mais não eram que o epítome
de toda a geração
e passavam de novo
com livros acabados de comprar
em qualquer antiquário
e com perfumes baratos
ou roupas de cores mortas
ou grandes romances de amor
por dentro das cabeças fantásticas,
fazendo nascer em mim a danada ânsia do poema.
E escrevia então um que começava «e de
súbito eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas»
e o poema doía-me
como se milhões de agulhas me florissem no corpo,
já o sol fracamente iluminava a cidade
e Edgware Road ficava deserta,
cruzada apenas por fantasmas
com ares de raparigas
que teriam decerto sido belas
e que não eram agora mais que
o epítome de toda a morte,
e eu ficava a vê-los passar,
perdendo-se para Marylebone ou Harrowby,
repetindo para que a noite me ouvisse
que
de súbito,
eis que aprendo a grande hegemonia de todas as coisas.
E de súbito, eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas.
Raparigas cruzavam Edgware Road inteira
perdendo-se pela Marylebone
com ares de fantasmas
e do meu lugar junto a King's Arms,
tendo por cima o cartaz
anunciando o concerto de Johnny Cash
e na mão a cerveja arrefecida,
eu podia vê-las passar e quase diria que eram belas,
e contudo mais não eram que o epítome
de toda a geração
e passavam de novo
com livros acabados de comprar
em qualquer antiquário
e com perfumes baratos
ou roupas de cores mortas
ou grandes romances de amor
por dentro das cabeças fantásticas,
fazendo nascer em mim a danada ânsia do poema.
E escrevia então um que começava «e de
súbito eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas»
e o poema doía-me
como se milhões de agulhas me florissem no corpo,
já o sol fracamente iluminava a cidade
e Edgware Road ficava deserta,
cruzada apenas por fantasmas
com ares de raparigas
que teriam decerto sido belas
e que não eram agora mais que
o epítome de toda a morte,
e eu ficava a vê-los passar,
perdendo-se para Marylebone ou Harrowby,
repetindo para que a noite me ouvisse
que
de súbito,
eis que aprendo a grande hegemonia de todas as coisas.
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