Star Dust
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
#19 - Eduardo Guerra Carneiro
RUY BELO
É no Café Nacional, em Vila do Conde,
e eu converso com Ruy Belo, nos anos
sessenta. Não é tempo dele avançar
em longas bebidas e os próprios Beatles
não gravaram ainda o álbum do Sargento Pimenta.
O Poeta bebe apenas da chícara o quente
cimbalino, enquanto espera a Teresa,
em casa dos pais, na doçaria ao lado.
É no Café Nacional, em Vila do Conde,
em domingo de bola na telefonia
do balcão. Ele fala-me das palavras
sábias do poema mas eu não sintonizo
e, ouvidos moucos, desligo, desconfiado
que são apenas palavras de beato.
É no Café Nacional, em Vila do Conde,
e eu converso com Ruy Belo, nos anos
sessenta. Não é tempo dele avançar
em longas bebidas e os próprios Beatles
não gravaram ainda o álbum do Sargento Pimenta.
O Poeta bebe apenas da chícara o quente
cimbalino, enquanto espera a Teresa,
em casa dos pais, na doçaria ao lado.
É no Café Nacional, em Vila do Conde,
em domingo de bola na telefonia
do balcão. Ele fala-me das palavras
sábias do poema mas eu não sintonizo
e, ouvidos moucos, desligo, desconfiado
que são apenas palavras de beato.
domingo, 7 de setembro de 2008
#18 - Fernando Pinto do Amaral
AURAS
Ainda quase a medo, ias pedir-me
o primeiro cigarro dessa noite.
Passaram alguns dias e recordo
a lua sobre o pátio, entre o fumo
e o princípio de um sonho a proteger
o sorriso de dois corações.
Era quase absurdo -- quem vivia
por nós aquele idílio? Quem guiava
os passos clandestinos entre as alas
da casa adormecida? Outubro amou
aquela intimidade cada vez mais nossa
e o desejo de nos abraçarmos
como duas crianças, para lá
de toda a nostalgia deste mundo.
Falávamos de bruxas e duendes
que entravam pla janela. Como tu
conseguiste ser mais do que uma sombra
ao longo desse tempo! A lareira fundia
as nossas solidões uma na outra
ali, na sala, ao som da Sarah Vaughan.
Canções abertas rumo a cada espírito
durante esse momento em que as palavras
nada querem dizer, mas é possível
vislumbrar de repente
as coloridas auras que nos cercam,
divinas e terrenas, como o anjo
em que me transformei -- agora condenado
a milhares de perguntas que se perdem
na tua ausência ainda a cintilar
aqui
nas desesperadas luzes da cidade,
no último cigarro da noite.
Ainda quase a medo, ias pedir-me
o primeiro cigarro dessa noite.
Passaram alguns dias e recordo
a lua sobre o pátio, entre o fumo
e o princípio de um sonho a proteger
o sorriso de dois corações.
Era quase absurdo -- quem vivia
por nós aquele idílio? Quem guiava
os passos clandestinos entre as alas
da casa adormecida? Outubro amou
aquela intimidade cada vez mais nossa
e o desejo de nos abraçarmos
como duas crianças, para lá
de toda a nostalgia deste mundo.
Falávamos de bruxas e duendes
que entravam pla janela. Como tu
conseguiste ser mais do que uma sombra
ao longo desse tempo! A lareira fundia
as nossas solidões uma na outra
ali, na sala, ao som da Sarah Vaughan.
Canções abertas rumo a cada espírito
durante esse momento em que as palavras
nada querem dizer, mas é possível
vislumbrar de repente
as coloridas auras que nos cercam,
divinas e terrenas, como o anjo
em que me transformei -- agora condenado
a milhares de perguntas que se perdem
na tua ausência ainda a cintilar
aqui
nas desesperadas luzes da cidade,
no último cigarro da noite.
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Sarah Vaughan
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
#17 - Mário Avelar
Num canal menor
The gift of life is a shot in the dark,
Laurie Anderson
Uma gelosia
entreaberta, um
fulgor na manhã.
Apenas um breve
rumor sob o branco:
no lugar da fonte
nova, senti o
olhar do poeta,
gato, príncipe, em
seu trono. Não são
esses os caminhos
de Sião.
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Mário Avelar
sábado, 30 de agosto de 2008
#16 - Levi Condinho
O VELHO AMOR
Nem sempre um saxofone anuncia a Páscoa
mas por aqui se sobem descendo
as curvas e contracurvas da senda
que a um calvário conduz serpenteando
contra o martírio a cruz os cravos os espinhos
a senda da radiosa e branca alegria
da alegria de anunciações matinais
-- nocturna seja a música --
pois também naqueles lábios Deus habitou
os de Julian Adderley -- recuso dizer Cannonball
-- alegria é paz
-- alegria é luz
e mais recuso a calúnia de blasfemo
nem sempre um saxofone foi obra do diabo
também o diabo celebrará a Páscoa
daquele que tentou sem vencer
desistindo -- vade retro -- pela fuga
ou por um excesso de amor magoado incompreendido
(oh vilipendiado Lúcifer)
jazz não é chaga sulfúrea de vício lúgubre
senão vede o coração pulsando
copulando no contrabaixo
grande esquife mugidor generoso corpo/caixa
vede pés e mão do baterista como esfregam
a matéria levitante
entre o éter e o sangue
buscando conciliação por dentro do tempo cerrado
(matemática linear paramentada em artifícios)
que mais poderia Deus querer
na grande falta da sua completa solidão
senão esta invenção pascal do jazz
para o fim do seu imenso tédio
Nem sempre um saxofone anuncia a Páscoa
mas por aqui se sobem descendo
as curvas e contracurvas da senda
que a um calvário conduz serpenteando
contra o martírio a cruz os cravos os espinhos
a senda da radiosa e branca alegria
da alegria de anunciações matinais
-- nocturna seja a música --
pois também naqueles lábios Deus habitou
os de Julian Adderley -- recuso dizer Cannonball
-- alegria é paz
-- alegria é luz
e mais recuso a calúnia de blasfemo
nem sempre um saxofone foi obra do diabo
também o diabo celebrará a Páscoa
daquele que tentou sem vencer
desistindo -- vade retro -- pela fuga
ou por um excesso de amor magoado incompreendido
(oh vilipendiado Lúcifer)
jazz não é chaga sulfúrea de vício lúgubre
senão vede o coração pulsando
copulando no contrabaixo
grande esquife mugidor generoso corpo/caixa
vede pés e mão do baterista como esfregam
a matéria levitante
entre o éter e o sangue
buscando conciliação por dentro do tempo cerrado
(matemática linear paramentada em artifícios)
que mais poderia Deus querer
na grande falta da sua completa solidão
senão esta invenção pascal do jazz
para o fim do seu imenso tédio
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quinta-feira, 28 de agosto de 2008
#15 - Ricardo António Alves
Humanidade
A doçura daquela
voz a tristeza daqueles
olhos o calor da
trompete de
Armstrong o segregado
desmentindo o ódio
A doçura daquela
voz a tristeza daqueles
olhos o calor da
trompete de
Armstrong o segregado
desmentindo o ódio
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sábado, 23 de agosto de 2008
#14 - João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)
O ídolo da juventude
estou morto sobre um piano abandonado
agoniado de jazz
descrente de sonhos que não me sonhei sonhar
reincidente nesta lucidez de estar farto de moscas
vou entrando nas répteis represas do presente
rasgando anjos de papel com as botas e os punhos
(o sangue cai sempre sem remorso
num silêncio incorruptível)
estou vivo num mar de plástico e excedentes
e o refrão soa distante como não haver mais distância
expande-se e reflui e explode nas minhas têmporas
no future no future no future
ergo a face o sorriso acoplado
leviathan cuspindo no chão
então digo
é meu o século do terror sem limites.
estou morto sobre um piano abandonado
agoniado de jazz
descrente de sonhos que não me sonhei sonhar
reincidente nesta lucidez de estar farto de moscas
vou entrando nas répteis represas do presente
rasgando anjos de papel com as botas e os punhos
(o sangue cai sempre sem remorso
num silêncio incorruptível)
estou vivo num mar de plástico e excedentes
e o refrão soa distante como não haver mais distância
expande-se e reflui e explode nas minhas têmporas
no future no future no future
ergo a face o sorriso acoplado
leviathan cuspindo no chão
então digo
é meu o século do terror sem limites.
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The Sex Pistols
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
#13 João Pedro Mésseder
DIANA KRALL
All or nothing at all
na retina do ouvido
a Diana Krall
Na cidade
um piano
E a noite?
Consente este gesto de luz?
O relógio das sombras
foi feito
para o tempo desta voz?
-- que tal como tu
diz ainda
P. S. I love you
All or nothing at all
na retina do ouvido
a Diana Krall
Na cidade
um piano
E a noite?
Consente este gesto de luz?
O relógio das sombras
foi feito
para o tempo desta voz?
-- que tal como tu
diz ainda
P. S. I love you
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The Beatles
domingo, 10 de agosto de 2008
#12 José Tolentino Mendonça
CONCERTO DOS TINDERSTICKS
Impossível dizer até que ponto
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos
pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto
dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte
Impossível dizer até que ponto
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos
pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto
dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte
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quinta-feira, 7 de agosto de 2008
#11 João Pedro Mésseder
ELLA
Esta voz
-- confia --
faz da noite
o tesouro do dia
Esta voz
-- confia --
faz da noite
o tesouro do dia
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