sábado, 3 de maio de 2008

#9 José do Carmo Francisco

S. D.


Não deixo que mais ninguém dispute estas lágrimas
Sei que morreste mas não reconheço a tua morte
Para mim não caíste nem foste para o hospital
Apenas flutuas a meio das escadas como num sonho


São apenas minhas estas silenciosas lágrimas
Que o meu inglês não traduz nem consegue traduzir
Fico com os discos e fotocopio os teus poemas
Para serem discutidos na aula e é tudo


É uma liturgia muito banal mas é minha
Não tenho outra maneira de te dizer adeus
Agora que enches de música outros territórios
Agora que alimentas uma grande saudade

Sandy Denny

Late November

sexta-feira, 25 de abril de 2008

#8 Fernando Cabrita

E DE SÚBITO, EIS


E de súbito, eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas.
Raparigas cruzavam Edgware Road inteira
perdendo-se pela Marylebone
com ares de fantasmas
e do meu lugar junto a King's Arms,
tendo por cima o cartaz
anunciando o concerto de Johnny Cash
e na mão a cerveja arrefecida,
eu podia vê-las passar e quase diria que eram belas,
e contudo mais não eram que o epítome
de toda a geração
e passavam de novo
com livros acabados de comprar
em qualquer antiquário
e com perfumes baratos
ou roupas de cores mortas
ou grandes romances de amor
por dentro das cabeças fantásticas,
fazendo nascer em mim a danada ânsia do poema.
E escrevia então um que começava «e de
súbito eis que aprendo
a grande hegemonia de todas as coisas»
e o poema doía-me
como se milhões de agulhas me florissem no corpo,
já o sol fracamente iluminava a cidade
e Edgware Road ficava deserta,
cruzada apenas por fantasmas
com ares de raparigas
que teriam decerto sido belas
e que não eram agora mais que
o epítome de toda a morte,
e eu ficava a vê-los passar,
perdendo-se para Marylebone ou Harrowby,
repetindo para que a noite me ouvisse
que
de súbito,
eis que aprendo a grande hegemonia de todas as coisas.

Johnny Cash

Hurt

segunda-feira, 14 de abril de 2008

#7 Manuel de Freitas

LACHRIMAE ANTIQUAE NOVAE (1604)

De mia morte vos diria
os precisos sinais
num acto de contorção. Mas
o alaúde quebrou-se,
cansado do favor do vento, e
é impossível como a alegria
a mais simples razão de dizer.

Quando o nome de Deus
me aflui resinoso aos lábios
nada quer dizer -- metáfora gasta
nos corredores da manhã,
a lembrar o silêncio das fontanas frias.

Se sabedes novas dos dias acabados
não mas digais, vos peço;
deixai que a voz ímpia de Sir
Elton John substitua hoje
as modinhas da tristeza
e a minuciosa anatomia do problema:

este líquido escuro, bilioso, que escorre
sem pressa pelos dias derradeiros
e se cristaliza às vezes
na retórica afável de quem chegou tarde.

Valeria Mignaco & Alfonso Marín

Flow My Tears, de John Dowland

Elton John

Your Song

segunda-feira, 7 de abril de 2008

#6 Adalberto Alves

HOME

A Simon & Garfunkel

De costas para o Plaza Hotel
Olho o Central Park
Território cruel
Onde se acendem chamas
Nos rostos marcados pela melancolia.
Kerouac e Ginsberg uivam
Alegres lobos possessos pela estrada fora
Whitman e Sandburg
Plantam florestas dentro dos grandes espaços interiores
E Cummings dá o mote de amor a Woody.
Quatro horas da tarde
Ergue-se no ar um cheiro mágico a sálvia, tomilho e salsa
Do vapor que brota das entranhas das ruas:
São dois rapazes errantes que cantam
Sábios como deuses decaídos
Os crepúsculos de que dia a dia se compõe a vida
O amor que vem e que apaga
A amizade ameaçada por águas turbulentas
E o regresso ao lar que no coração nós habitámos.
O Central Park parece o jardim do bairro que me criou
Lembro Lisboa e tenho vontade de voltar para casa.
New Yorl, somewhere, somehow

Simon & Garfunkel

Homeward Bound

sábado, 29 de março de 2008

#5 João Candeias

ESTÁTUAS JAZZENTES

voz extraordinária aquela entre silêncio e eco, pujante de avenidas nocturnas.
luzes acendem nas poças de chuva o seu brilho relento
para onde tomba o cigarro emudecido,
restos de desespero, soturna balada de acordes e fumos
disfarce de bruma para a noite dos delitos.
Café Bagdad -- nesta voz extraordinária entre o branco e o negro.
julgo-o filme, não o vejo, oiço as vozes,
os sons, a música, de costas para o cinema.
voz extraordinária que, imagino, trespassa a sombra
contra as paredes, do homem da gabardina negra
nos atalhos do caminho, nas encruzilhadas, e que finca os pés
na arqueologia do devir das grandes metrópoles.

pudesse eu reter toda a música do saxofone em surdina
o voo do sapateado, as palmas ritmadas,
e a voz, essa voz persistente e extraordinária
extraída das apressadas noites de amor
ou no sobressalto do dia nascendo.
também se falava muito de Brenda e de Charlie "Bird"
e depois o piano, adejante, como se fora de outro
tempo -- de outros filmes? -- de outro universo, outro destino
de coração entregue à noite onde dormem os monstros
do dia, como de dia dormem os príncipes da noite
envoltos em poalha de lantejoulas.
voz extraordinária aquela: da mão ao rosto
os olhos rendidos, atentos à música, ao corpo
até à última sílaba musical do silêncio

Jevetta Steele

Calling You (de Bagdad Café)

segunda-feira, 24 de março de 2008

#4 João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

DISTANTE

«You'd better run and
join your brother John»

GENESIS
«The Lamb Lies Down On Broadway»

as horas as horas
como sombras
de um silêncio antigo para lá da memória
a minha carne dispersa
retém um nome acometido nas ruas --
thorem
meu irmão john espera-me
nessa noite de todas as viagens
ancoradas por um sopro no tempo
espera-me lá muito longe e nessa estranhada lonjura
é o seu ombro
que espera o meu
os seus olhos que procuram nos meus
reler a mesma indeclinável distância
parto agora
é que as luzes da cidade se extinguem
e os meus passos ecoam por dentro das casas.

Genesis

The Colony Of Slippermen

domingo, 23 de março de 2008

#3 Levi Condinho

DIREITO À PROPRIEDADE


Sou contra a propriedade privada
há no entanto objectos que são mesmo meus
um garrafão de vinho sempre disponível
discos do Bach do Archie Shepp ou do Zappa
o «Pela Estrada Fora» do Jack Kerouac
as «Poesias» de Álvaro de Campos
o «Ulisses» do Joyce
o «Outono em Pequim» do Boris Vian
o «Eros e Civilização» do Marcuse
a «Apresentação do Rosto» do Herberto Helder
os «Trópicos» do Henry Miller
o «Diário de um Ladrão» do Genet etc. etc.
sobretudo sobretudo
os 3 simpáticos companheiros
que tenho no meio das pernas

Frank Zappa

Teen-age Prostitute

Archie Shepp

Things Ain't What They Used To Be

Bach

Concerto de Brandeburgo - n.º 2 - I-Allegro Moderato
Orquestra Barroca de Freiburg

sábado, 22 de março de 2008

#2 Fernando Assis Pacheco

CHIADO, LISBOA: ESCRITOR À BARRA


"...que há-de haver sempre um Neil Diamond alto de mais perfazendo a destruição do ouvido médio"

"...que da vida levo poucas antes ardesse é o que penso à noite lembranças"

"...que me demoro na contemplação da minudência chamada (disseste?)"

"...que rapidamente um triste"

"...que isto ao menos levo: copos, e esses amigos amargos desfeitos na barra: achas que salvo algum?"

"...que a ideia seria misturar versos de três poetas (Pessoa, Maria Browne, Martin Codax) a ver"

"...que a raça humana filhos parentes deixavas quem à volta de quê"

"...que apesar da alta do custo de vida"

"...que as raparigas novas dão uma vontade de rir ao pé dos abat-jours ó pistautira"

"...que uma vez num malabar estava o Melo Antunes com sono"

"...que jamais beber o próprio peso em espécie Jim Beam's"

"...que tu paraste: parei?: a dita revolução na via uriginária portuguesa: o uriginol!"

"...que fecha às três toda a conversa let's come to Barbados"

"...que à cabeça do fósforo, zzk"

"...que mau grado os apetites por uma literatura ao serviço do puâbo"

"...que somos um funeral"

"...que me resta de ti em pequenas partículas no cinzeiro da Swissair"

Neil Diamond

Love On The Rocks

sexta-feira, 21 de março de 2008

#1 João Pedro Mésseder

BILLIE HOLIDAY

Canta e é um barco
canta o barro das águas

Por detrás a nuvem do sono
o silêncio
o algodão

e um grito
(há um estranho fruto
enforcado numa árvore)

Canta
E como se o não quisera
dói e flutua