Spending My Time
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
domingo, 15 de novembro de 2009
#46 Vasco Graça Moura
quizás, quizás, quizás
quando se está com gripe e nos dói toda a cara
o mal-estar só passa imaginando
que mozart uma vez encontrou nat king cole
e pôs-se a acompanhar quizás, quizás, quizás
a voz de um era rouca na curva do bolero
e o piano gemendo em graves da mão esquerda
dava a sua resposta asiempre que me preguntas
e triste era o refrão, quizás, quizás, quizás.
na música e na vida, algum desesperado,
mesmo sem estar com gripe ia perdendo o tempo,
sombrio, alccolizado, pelas melancolias
da voz e do piano, quizás, quizás, quizás.
nat king cole e mozart, depois de improvisarem,
fumaram um cigarro e foram-se trocando
trauteios, estranhezas, de blues e de sonatas,
mas tudo fragmentário, quizás, quizás, quizás.
se algum saxofone pegasse nesse tema,
juntando variações azuis e lancinantes,
podíamos ouvir um köchel qualquer coisa
be bop e dissonante, quizás, quizás, quizás.
e voltaria a voz em ritmos sacudidos,
no bar, na discoteca, nas sombras, nas entranhas.
nat king cole a cantar, mozart a acompanhá-lo,
ah, turvos corações, quizás, quizás, quizás.
quando se está com gripe e nos dói toda a cara
o mal-estar só passa imaginando
que mozart uma vez encontrou nat king cole
e pôs-se a acompanhar quizás, quizás, quizás
a voz de um era rouca na curva do bolero
e o piano gemendo em graves da mão esquerda
dava a sua resposta asiempre que me preguntas
e triste era o refrão, quizás, quizás, quizás.
na música e na vida, algum desesperado,
mesmo sem estar com gripe ia perdendo o tempo,
sombrio, alccolizado, pelas melancolias
da voz e do piano, quizás, quizás, quizás.
nat king cole e mozart, depois de improvisarem,
fumaram um cigarro e foram-se trocando
trauteios, estranhezas, de blues e de sonatas,
mas tudo fragmentário, quizás, quizás, quizás.
se algum saxofone pegasse nesse tema,
juntando variações azuis e lancinantes,
podíamos ouvir um köchel qualquer coisa
be bop e dissonante, quizás, quizás, quizás.
e voltaria a voz em ritmos sacudidos,
no bar, na discoteca, nas sombras, nas entranhas.
nat king cole a cantar, mozart a acompanhá-lo,
ah, turvos corações, quizás, quizás, quizás.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
#45 Pedro Mexia
DE REPENTE
Andava por Lisboa a falar-te de Leonard Cohen
e de repente já não estavas a meu lado.
Então pombos e pardais e outros pássaros
esvoaçaram entre Lisboa o Cohen e a tua ausência.
Andava por Lisboa a falar-te de Leonard Cohen
e de repente já não estavas a meu lado.
Então pombos e pardais e outros pássaros
esvoaçaram entre Lisboa o Cohen e a tua ausência.
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quarta-feira, 12 de agosto de 2009
#44 Pedro Strecht
1979
muito tempo antes
parece agora breves minutos
as mesmas tardes passadas brincando
os jogos de caixa o estojo das experiências
não podíamos evitar as de explosão
o subutteo a raspar os joelhos
os longos relatos pela rádio noite fora
portugal campeão mundial de hóquei
os duelos do rali serra acima
até o sono chegar à hora certa
e então subitamente a mudança
como era possível algumas pessoas a música
baterem tão fundo ao coração
e disso alguma impossibilidade de partilhar
os segredos profundos da intimidade
traduzindo-se noutra forma de olhar
para quem conhecemos bem ou talvez não
e depois saber que o caminho era em frente
sentir o passado tão forte e não parar
o desejo de descobrir a crescer
recordo ver cair a noite envolvendo
depois de um banho tomado
o cheiro a água-de-colónia espanhola
quando o primeiro calor chegava
finalmente dormir de janela aberta
algum barulho repetido sincopado de carros
embalava ainda mas tudo estava diferente
e de repente já não era rita coolidge
envolta num mel lustroso
a cantar que lá fora a chuva começara
era joy division a abrir na guitarra
o amor vai dilacerrar-nos uma voz profunda
e a maior distância era essa
tão forte mas tão pessoal
que não valia a pena contâ-la
tão-somente vivê-la e dizer assim
este sou eu e quem vier a conhecer-me
leva-me já
muito tempo antes
parece agora breves minutos
as mesmas tardes passadas brincando
os jogos de caixa o estojo das experiências
não podíamos evitar as de explosão
o subutteo a raspar os joelhos
os longos relatos pela rádio noite fora
portugal campeão mundial de hóquei
os duelos do rali serra acima
até o sono chegar à hora certa
e então subitamente a mudança
como era possível algumas pessoas a música
baterem tão fundo ao coração
e disso alguma impossibilidade de partilhar
os segredos profundos da intimidade
traduzindo-se noutra forma de olhar
para quem conhecemos bem ou talvez não
e depois saber que o caminho era em frente
sentir o passado tão forte e não parar
o desejo de descobrir a crescer
recordo ver cair a noite envolvendo
depois de um banho tomado
o cheiro a água-de-colónia espanhola
quando o primeiro calor chegava
finalmente dormir de janela aberta
algum barulho repetido sincopado de carros
embalava ainda mas tudo estava diferente
e de repente já não era rita coolidge
envolta num mel lustroso
a cantar que lá fora a chuva começara
era joy division a abrir na guitarra
o amor vai dilacerrar-nos uma voz profunda
e a maior distância era essa
tão forte mas tão pessoal
que não valia a pena contâ-la
tão-somente vivê-la e dizer assim
este sou eu e quem vier a conhecer-me
leva-me já
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sábado, 11 de julho de 2009
# 43 João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)
EUROPA
sentes o vento no sopé da estátua
desdizendo o sal
de que foi feito o excesso e a renúncia
a gasta memória de preces demasiado escutadas
cavalo enlouquecido
pelo orgulho de empédocles --
ogni viltà convien che quia sia morta.
ouço a respiração densa dos séculos
os homens calcaram o seu próximo calcularam
essa incerta rota do ouro e do cânhamo --
fusão das calotes na imensidão
a cotovia bailou com o urso
-- doía a semente das gerações lançada
na terra ferida
pelo teu riso de peste e excomunhão
águia bêbada de amor
lúbrica e cúpida meretríssima senhora
da pólvora e das insígnias
da razão.
naufragaste com sepúlveda
numa impremeditada nudez própria agora
selling england by the pound
acaso te reconheças por imagens cruas
e a serpente da astúcia troçou do teu meio-dia
num lacht die welt der grause vorhang riss
die hochzeit kommt fur licht und finsterniss.
sentes o vento no sopé da estátua
desdizendo o sal
de que foi feito o excesso e a renúncia
a gasta memória de preces demasiado escutadas
cavalo enlouquecido
pelo orgulho de empédocles --
ogni viltà convien che quia sia morta.
ouço a respiração densa dos séculos
os homens calcaram o seu próximo calcularam
essa incerta rota do ouro e do cânhamo --
fusão das calotes na imensidão
a cotovia bailou com o urso
-- doía a semente das gerações lançada
na terra ferida
pelo teu riso de peste e excomunhão
águia bêbada de amor
lúbrica e cúpida meretríssima senhora
da pólvora e das insígnias
da razão.
naufragaste com sepúlveda
numa impremeditada nudez própria agora
selling england by the pound
acaso te reconheças por imagens cruas
e a serpente da astúcia troçou do teu meio-dia
num lacht die welt der grause vorhang riss
die hochzeit kommt fur licht und finsterniss.
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sexta-feira, 12 de junho de 2009
#42 - Fernando Cabrita
ST. QUINTIN AVENUE
Na fria noite de Fevereiro,
passando já sem ler
as páginas de um qualquer Hammet,
recordo as ilhas ao sul do meu país
onde tudo foi luz
e brevidade
e a brancura delas ao longe ainda me perturba.
Vejo o fogo,
acidentado e terrivelmente eterno,
tremente,
aprisionado na lareira
como um sábio ou um poeta
entre a vastidão de um sonho
e a correria dos dias.
Sonhos, palavras, sonhos...
Quantos e que sonhos vão talvez vogando
nestes quartos
desta velha casa de St. Quintin Avenue?
Quantos ideais a si mesmo se entretecem
num bordado agreste
de noites e silêncios?
Que pensará a velha senhora do rés-do-chão
que só dificilmente entrevejo
no sombrio crepúsculo das cinco horas
recolhendo os seus gatos
ou o jornal à porta de casa?
Que geniais ou insensatos
serão os sonhos das duas jovens espanholas
do quarto já ao lado
que constantemente me pedem lhes troque
moedas para longínquos telefonemas,
que discutem e gritam e se agridem
até que a polícia as venha buscar de madrugada
e regressam pela manhã
de novo amigas?
Que difíceis planos congeminam
para toda a existência breve?
Ou nada mais querem
afinal
que o alegre sabor dos dias
e os silêncio das almas
por entre o frio londrino de Fevereiro?
E o esguio rodesiano do segundo andar
que raramente deixa ouvir do quarto
um qualquer ruído,
descendo de quando em quando
tão somente por detrás
de uns óculos tímidos?
Que futuro traça no arisco círculo das tardes
e das noites,
palmilhando a neve lá de fora?
Recordo pois as ilhas
que foram já imensas caravelas
e celebradas melodias,
o verão sorridente e antigo,
demorando na amizade da sombra.
Oiço-lhes as antiquíssimas flautas
pacificamente erguidas na escuridão
e no silêncio, os sussurros dos amantes
um no outro descobertos,
o som português do mar
afeiçoando aos litorais a sua mão
de luar e espuma.
Quantos sonhos, como fantasmas,
estarão por esta hora
espreitando a rua
por detrás de janelas e cortinas,
olhando o movimento ténue dos carros
e a deserção dos pubs
à nocturna hora?
Em silêncio os tento adivinhar
entre a memória
de juventude e fogos.
Ao fundo do corredor vive Abigail
de quem só sei o nome e que está só.
Falamos às vezes
de coisas vazias,
transitórios vizinhos que somos
parando de tempos em tempos no mesmo degrau
da mesma escada
que a lado nenhum conduz.
É loira e da sua janela aberta às vezes
para o triste quintal das traseiras
saiem sons de Joe Cocker
numa surdina metálica.
Que sonhos serão os dela,
no coração acomodados?
Que coisas estranhas e hábeis verá
quando ao fim da tarde
deixa perder-se no horizonte de casas e ruas
o olhar cansado?
Faz frio como só Fevereiro sabe
e fecho o livro.
Já nem leio,
jé nem entendo os sinais
e os dizeres.
Sós as ilhas me voltam à lembrança pátria,
brancas e frágeis
como a tarde dos tempos.
Só as ilhas,
as ilhas,
as ilhas...
Na fria noite de Fevereiro,
passando já sem ler
as páginas de um qualquer Hammet,
recordo as ilhas ao sul do meu país
onde tudo foi luz
e brevidade
e a brancura delas ao longe ainda me perturba.
Vejo o fogo,
acidentado e terrivelmente eterno,
tremente,
aprisionado na lareira
como um sábio ou um poeta
entre a vastidão de um sonho
e a correria dos dias.
Sonhos, palavras, sonhos...
Quantos e que sonhos vão talvez vogando
nestes quartos
desta velha casa de St. Quintin Avenue?
Quantos ideais a si mesmo se entretecem
num bordado agreste
de noites e silêncios?
Que pensará a velha senhora do rés-do-chão
que só dificilmente entrevejo
no sombrio crepúsculo das cinco horas
recolhendo os seus gatos
ou o jornal à porta de casa?
Que geniais ou insensatos
serão os sonhos das duas jovens espanholas
do quarto já ao lado
que constantemente me pedem lhes troque
moedas para longínquos telefonemas,
que discutem e gritam e se agridem
até que a polícia as venha buscar de madrugada
e regressam pela manhã
de novo amigas?
Que difíceis planos congeminam
para toda a existência breve?
Ou nada mais querem
afinal
que o alegre sabor dos dias
e os silêncio das almas
por entre o frio londrino de Fevereiro?
E o esguio rodesiano do segundo andar
que raramente deixa ouvir do quarto
um qualquer ruído,
descendo de quando em quando
tão somente por detrás
de uns óculos tímidos?
Que futuro traça no arisco círculo das tardes
e das noites,
palmilhando a neve lá de fora?
Recordo pois as ilhas
que foram já imensas caravelas
e celebradas melodias,
o verão sorridente e antigo,
demorando na amizade da sombra.
Oiço-lhes as antiquíssimas flautas
pacificamente erguidas na escuridão
e no silêncio, os sussurros dos amantes
um no outro descobertos,
o som português do mar
afeiçoando aos litorais a sua mão
de luar e espuma.
Quantos sonhos, como fantasmas,
estarão por esta hora
espreitando a rua
por detrás de janelas e cortinas,
olhando o movimento ténue dos carros
e a deserção dos pubs
à nocturna hora?
Em silêncio os tento adivinhar
entre a memória
de juventude e fogos.
Ao fundo do corredor vive Abigail
de quem só sei o nome e que está só.
Falamos às vezes
de coisas vazias,
transitórios vizinhos que somos
parando de tempos em tempos no mesmo degrau
da mesma escada
que a lado nenhum conduz.
É loira e da sua janela aberta às vezes
para o triste quintal das traseiras
saiem sons de Joe Cocker
numa surdina metálica.
Que sonhos serão os dela,
no coração acomodados?
Que coisas estranhas e hábeis verá
quando ao fim da tarde
deixa perder-se no horizonte de casas e ruas
o olhar cansado?
Faz frio como só Fevereiro sabe
e fecho o livro.
Já nem leio,
jé nem entendo os sinais
e os dizeres.
Sós as ilhas me voltam à lembrança pátria,
brancas e frágeis
como a tarde dos tempos.
Só as ilhas,
as ilhas,
as ilhas...
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Joe Cocker
domingo, 17 de maio de 2009
#41 - João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)
Hashish
a cabeça bate lateralmente (um som cavo)
as pernas flectem no esboço de um passo
vagas alternas vibram no ar
a luz multicolor e caleidoscópica
modela algo que é ainda um espaço posto que
rarefeito (ou sintético?)
ouço música tocar (possivelmente john cale)
longe lá ainda
a percepção inquieta de outros sorrisos sinceros e afáveis.
a cabeça bate lateralmente (um som cavo)
as pernas flectem no esboço de um passo
vagas alternas vibram no ar
a luz multicolor e caleidoscópica
modela algo que é ainda um espaço posto que
rarefeito (ou sintético?)
ouço música tocar (possivelmente john cale)
longe lá ainda
a percepção inquieta de outros sorrisos sinceros e afáveis.
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segunda-feira, 11 de maio de 2009
Artur Queiroz
As festas do clube no tempo do Bill Halley e os seus cometas, o Harry Belafonte, a misse das colheitas; sapato roto e peúga rota: cheiro a katinga e mais nada. Quem que queria dançar contigo? -- menina não. O melhor é ficar a ver. Uma destas de ver. Ainda a filha de um negro pode te dar sorte. Agora uma branca? Tampa, é pá!
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terça-feira, 14 de abril de 2009
#40 - Fernando Cabrita
A PELE DOS DIAS
Eis a pele dos dias, frágil
e cinzenta como o vasto palco
do céu onde decorrem nuvens e pombos,
ou a subterrânea trepidação da cidade
cruzada de comboios entre Richmond e Upminster.
Tudo tem aqui essa fragilidade
de cinza, os carros e as árvores,
os parques e as fontes,
as grades e as luzes
de súbito declaradas como fogos,
o semblante turvo das paredes,
o regresso a casa ao entardecer,
a juventude já morando para a eternidade
nos salões do espírito.
Mas há o bálsamo sagrado dos sonhos,
a imaginação galgante os doridos rochedos do real,
Simon e Garfunkel sabendo a infância
no fundo limite do segredo do som,
a recordação de um poema de Herberto Helder
ou um amor adiado regressando à memória
acesa pelo crepúsculo,
um cheiro ainda a verão no limite da alma,
uma mão na esquina do olhar
acenando como uma deusa que nos houvesse
sido prometida.
Sinto que o tempo se escoa a cada passo
ou que a cera da idade aos poucos
se derrete.
Eis como tudo é, fragil e cinzento
como a estranha pele dos dias.
Eis a pele dos dias, frágil
e cinzenta como o vasto palco
do céu onde decorrem nuvens e pombos,
ou a subterrânea trepidação da cidade
cruzada de comboios entre Richmond e Upminster.
Tudo tem aqui essa fragilidade
de cinza, os carros e as árvores,
os parques e as fontes,
as grades e as luzes
de súbito declaradas como fogos,
o semblante turvo das paredes,
o regresso a casa ao entardecer,
a juventude já morando para a eternidade
nos salões do espírito.
Mas há o bálsamo sagrado dos sonhos,
a imaginação galgante os doridos rochedos do real,
Simon e Garfunkel sabendo a infância
no fundo limite do segredo do som,
a recordação de um poema de Herberto Helder
ou um amor adiado regressando à memória
acesa pelo crepúsculo,
um cheiro ainda a verão no limite da alma,
uma mão na esquina do olhar
acenando como uma deusa que nos houvesse
sido prometida.
Sinto que o tempo se escoa a cada passo
ou que a cera da idade aos poucos
se derrete.
Eis como tudo é, fragil e cinzento
como a estranha pele dos dias.
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